A volta do padrão Lava Jato na política brasileira; Rui Cezar
A volta do padrão Lava Jato na política brasileira
Nos últimos meses, alguns episódios da vida pública nacional têm despertado uma sensação de déjà-vu em parte da opinião pública. Ressurge, em determinados setores, um modo de atuação política e jurídica que marcou profundamente o país durante os anos da Operação Lava Jato: a divulgação seletiva de informações, a espetacularização de investigações e a transformação de procedimentos legais em instrumentos de disputa política.
A Lava Jato surgiu com o objetivo legítimo de investigar esquemas de corrupção. Ninguém discute que havia irregularidades a serem apuradas e punidas. Contudo, com o passar do tempo, a operação foi sendo cercada por críticas cada vez mais consistentes, inclusive vindas de juristas, acadêmicos e de decisões do próprio Supremo Tribunal Federal. Questionou-se o uso excessivo de prisões preventivas, a divulgação de delações antes da devida comprovação e a relação pouco republicana entre investigadores e determinados setores da mídia.
O episódio envolvendo o então juiz Sergio Moro tornou-se emblemático desse debate. Conversas reveladas posteriormente indicaram uma proximidade imprópria entre magistrado e acusação, comprometendo o princípio da imparcialidade que deve orientar qualquer processo judicial. Anos depois, o próprio Supremo reconheceu a suspeição do juiz em processos envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, anulando decisões que haviam marcado profundamente o cenário político brasileiro.
O problema é que práticas semelhantes parecem ressurgir em momentos estratégicos da disputa eleitoral. Investigações que deveriam seguir o ritmo natural do devido processo legal acabam ganhando contornos de espetáculo público, muitas vezes com vazamentos seletivos que produzem efeitos políticos imediatos. A lógica deixa de ser apenas a busca da verdade jurídica e passa a dialogar com o calendário eleitoral.
Isso não significa defender impunidade. A corrupção deve ser combatida com firmeza, transparência e respeito às instituições. Mas o combate à corrupção não pode se transformar em instrumento de luta política. Quando a Justiça passa a ser percebida como parte do jogo eleitoral, perde-se algo essencial: a confiança pública na imparcialidade das instituições.
A experiência recente demonstrou o preço que o país paga quando o sistema de Justiça se mistura com o ambiente da polarização política. A credibilidade das investigações se enfraquece, decisões passam a ser contestadas não pelo seu mérito jurídico, mas por suspeitas de motivação política, e a própria democracia se fragiliza.
O Brasil precisa aprender com esse período. O combate à corrupção deve continuar, mas dentro das regras do Estado de Direito. Investigações sólidas, respeito ao devido processo legal e prudência institucional são condições indispensáveis para que a Justiça cumpra sua função sem se transformar em protagonista da disputa política.
A lição que ficou dos anos da Lava Jato é clara: quando a política invade os tribunais — ou quando os tribunais invadem a política — quem perde é a própria democracia.
www.reporteriedoferreira.com.br/ Rui Cezar Leitao- advogado, jornalista, poeta, escritor


