O Milagre da Prevenção: Fé e Responsabilidade nas Ruas
Em uma das passagens mais tocantes do Evangelho, Jesus chega a Betânia e encontra Maria e Marta submersas na dor pela morte de Lázaro, sepultado há quatro dias. Mesmo consciente do milagre que operaria a seguir, Ele não se esquiva do luto daquelas irmãs. A Escritura registra ali o seu versículo mais curto, porém de profundidade incomensurável: “Jesus chorou”. Aquelas lágrimas não traduziam impotência; externalizavam compaixão. Cristo nos ensinou, na prática, que partilhar a dor do outro é uma das expressões mais puras do amor.
Nas vias e rodovias de hoje, lamentavelmente, testemunhamos o oposto. Diante de um sinistro de trânsito, indivíduos sacam celulares para registrar o sofrimento em tempo real, enquanto as vítimas clamam por socorro. Invadem o perímetro do resgate ávidos pela imagem mais chocante, pelo clique que renderá engajamento nas redes sociais. Substituem a compaixão pela morbidade; convertem a solidariedade em indiferença apática.
Jesus estabeleceu um padrão antagônico: Ele nos convoca a enxergar a vulnerabilidade humana e agir. Na mesma narrativa, antes de ordenar a ressurreição, Ele profere um comando imperativo: “Retirai a pedra”. Obviamente, Aquele que venceu a morte poderia pulverizar o sepulcro com um sopro de sua boca. Contudo, escolheu condicionar o milagre à cooperação humana. Havia uma cota de esforço que cabia exclusivamente aos presentes.
Essa dinâmica é a chave para a sobrevivência no trânsito. Todos nós carregamos uma pedra diária a ser removida: a pedra da imprudência, da pressa cega, da distração do celular e da perigosa ilusão de que a tragédia só bate à porta alheia. Retiramos essa pedra quando afivelamos o cinto de segurança, ajustamos o capacete, acomodamos as crianças no dispositivo correto e respeitamos os limites de velocidade.
É comum que condutores iniciem o dia com uma prece sincera, suplicando pelo livramento divino. A fé é um pilar legítimo que sustenta. No entanto, o Criador não endossa a negligência. Carece de coerência moral clamar pela proteção dos filhos e, logo em seguida, transportá-los soltos no banco traseiro. É um contrassenso pedir direção segura enquanto se adota uma conduta temerária. Antes de exigir o milagre do livramento, cumpre-nos o dever de retirar a pedra. A prevenção não zera os riscos do mundo, mas valida nossa responsabilidade sobre o que nos compete. O zelo humano abre caminho para a providência divina.
Por fim, há uma terceira e sutil lição nessa passagem bíblica. Ao comando de Jesus, Lázaro deixa o túmulo, mas emerge atado por faixas de sepultamento. Cristo volta-se novamente à multidão e ordena: “Desatai-o e deixai-o ir”. O impossível fora realizado, mas a dignidade daquela vida dependia, outra vez, do agir humano.
No trânsito, a regra se repete. Além de resguardar a própria conduta, somos guardiões dos outros. É nosso dever desatar o próximo de comportamentos nocivos: intervir para que o amigo alcoolizado não dirija, exigir que a criança seja transportada com segurança e alertar sobre o capacete desafivelado. Levar essas três coordenadas para as ruas — compaixão ativa, responsabilidade preventiva e intervenção fraterna — é o único caminho para que o trânsito deixe de ser um cenário de luto e se torne um espaço de preservação da vida.
Abimadabe Vieira
Educadora de Trânsito e Observadora Certificada pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) | Escritora da Coleção Amigos do Trânsito



