A CARTA QUE OFICIALIZA O ENTREGUISMO AOS EUA
Agora parece não existir mais dúvidas. O pré-candidato Flávio Bolsonaro estaria decidido a entregar o Brasil aos Estados Unidos em termos inéditos, conforme interpretação que decorre da carta-resposta enviada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. No documento, o chefe da diplomacia dos EUA agradece a “oferta generosa de colocar a transição à disposição” de seu governo, caso o senador seja eleito, e manifesta disposição para firmar um tratado de comércio e investimentos “benéfico para ambas as nações, um acordo construído sobre o livre mercado, o respeito mútuo e a aliança estratégica”. Se não fosse a divulgação da resposta de Marco Rubio, essa promessa feita pelo pré-candidato do PL provavelmente permaneceria desconhecida dos brasileiros. Também chama atenção o fato de que, na correspondência enviada ao governo dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro encerra a mensagem desejando: “Deus abençoe a América”.
Esquecendo de rogar a Deus que abençoe também o Brasil. Mais uma vez, seu adversário, o presidente Lula, recebe de presente o reforço do tema da soberania nacional como eixo de campanha. A eleição deste ano passa, então, a representar um momento decisivo para que os brasileiros escolham entre dois projetos distintos: um que prioriza uma política externa autônoma e outro que aposta em uma aliança estratégica mais estreita com os Estados Unidos, em situação de submissão. Flávio Bolsonaro demonstra disposição para contrariar o espírito do compromisso constitucional previsto no artigo 78 da Constituição Federal, segundo o qual o presidente da República deve “manter, defender e cumprir a Constituição” e “sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil”. Sua correspondência ao governo norte-americano revela uma postura incompatível com esse compromisso. Na realidade, essa posição não surpreende quem acompanha suas declarações públicas. Em diversas oportunidades, o senador manifestou opiniões consideradas pouco comprometidas com a defesa da soberania nacional.
No ano passado, ao comentar as pressões exercidas pelos Estados Unidos, recorreu a uma analogia extrema envolvendo a Segunda Guerra Mundial: “Se você olhar para a Segunda Guerra Mundial, o que os Estados Unidos fizeram com o Japão? Lançaram uma bomba atômica em Hiroshima para demonstrar força… depois uma segunda bomba em Nagasaki”. Em seguida, concluiu: “Essa situação tem que ser encarada como uma negociação de guerra… cabe a nós evitar que caiam duas bombas atômicas aqui no Brasil”. Essa declaração transmite a ideia de que o Brasil deveria aceitar uma posição de fragilidade diante dos interesses norte-americanos, assumindo uma postura de subalternidade em vez de defender sua autonomia. Flávio Bolsonaro também criticou o presidente Lula por adotar um discurso considerado excessivamente duro em relação aos Estados Unidos, especialmente quando o governo brasileiro defende a redução da dependência internacional do dólar. Essa postura reforça a imagem de um político que relativiza a importância da soberania nacional em busca de apoio externo para seu projeto eleitoral. Os fatos recentes alimentam esse debate.
A divulgação da carta enviada ao governo dos Estados Unidos ganhou ampla repercussão na imprensa política brasileira e acrescentou um novo elemento à disputa eleitoral. Sua posição fica ainda mais evidente quando afirma: “Esta é a encruzilhada que a América enfrenta: ou vocês têm o aliado mais poderoso do continente, ou um antagonista que se alinha com adversários americanos e torna sua política para a região impossível”. Todas essas manifestações revelam um mesmo padrão de comportamento: pedidos de interferência estrangeira, negociações envolvendo recursos estratégicos do país, tentativas de vincular questões comerciais à anistia política, críticas ao Judiciário e o convite para que representantes do governo norte-americano participem da eventual equipe de transição de um futuro governo. Flávio Bolsonaro apresenta o Brasil como um ativo de negociação política, subordinando os interesses nacionais ao projeto de retorno do grupo político liderado por seu pai. Os episódios falam por si.



