Nos tempos dos cinemas de rua Por Sérgio Botelho
Nos tempos dos cinemas de ruaSérgio Botelho
– Estava ainda há pouco ouvindo música de orquestra por streaming. Eu gosto de músicas de orquestra. Isso desde o tempo de adolescente. De repente, ouço o tema de “A Summer Place,” da orquestra de Percy Faith, uma das melhores da história da música.
Então, me vi esperando uma sessão de cinema no Plaza. A memória me levou automaticamente à uma tarde qualquer das décadas de 1960. Era assim. Música orquestrada até começar a sessão. Não somente no Plaza, mas também no Rex e no Municipal, os cinemas de rua que ficavam mais perto da minha casa, no beco do Pronto Socorro, oficialmente, rua Arthur Aquiles, onde nasci e vivi até os 16 anos.
Que saudade dos cinemas de rua! Havia muitos outros na João Pessoa de outro dia. Tanto no Centro quanto nos bairros. No Centro, além de Plaza, Rex e Municipal, tinha o Cine Brasil, na Guedes Pereira, e o Filipéia, na Rua da República. No Varadouro, o Astória, também na Rua da República, e o São Pedro, na São Miguel.
Nos bairros, havia salas como o Santo Antônio, o Jaguaribe e o São José, em Jaguaribe, o Torre e o Metrópole, na Torre, o Bela Vista, entre Jaguaribe e Cruz das Armas. Em Cruz das Armas, propriamente dito, havia o Glória, e em Oitizeiro, o Guarani. Em Mandacaru, o São Luiz. Enfim, já na década de 1970, existiu o badalado Cine Tambaú, no Hotel Tambaú, próximo ao circuito das boates.
Do Rex, depois da missa do Padre Juarez, na Igreja da Misericórdia, não posso esquecer das matinais dos domingos, com seus seriados, e a troca de figurinhas dos álbuns de estampas. A gente não ia apenas para ver o filme, mas também participar de um pequeno ritual infantil. Era ali que se encontravam os aflitos com as figurinhas repetidas, os meninos e meninas atrás da imagem difícil, da última que faltava para completar o álbum da vez.
Esses cinemas não eram apenas lugares de exibição. Eram pontos de encontro. A ida ao cinema começava muito antes do apagar das luzes. Começava na calçada, na fila, na saudação do porteiro conhecido pelo nome, na passada de vista pelos cartazes que prometiam aventuras, romances e musicais. Havia uma sensação de vizinhança que os cinemas de rua tinham e que nenhuma sala de shopping conseguiu reproduzir.
O fim dos cinemas de rua não aconteceu de uma vez. Foi um esvaziamento lento. Entre as razões mais citadas estão a mudança do eixo urbano e cultural do Centro para a orla, o avanço de novos hábitos de consumo e a concorrência da televisão. Aos poucos, os velhos cinemas perderam público, foram fechando, mudando de função ou tendo seus prédios descaracterizados.
E o que findou, na verdade, não foi só um modelo de exibição. Acabou um modo de viver a cidade. Acabou o costume de sair de casa a pé, dobrar a esquina e entrar numa sala onde a magia da telona dominava. Talvez por isso a saudade seja tão grande.
Quando uma música como o tema de “A Summer Place” toca de repente, ela não chama apenas um filme. Ela acende outra vez a fachada do cinema, a espera da sessão, a magia dos cinemas de rua que não existem mais.
(Na foto, o antigo Cine Rex)

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