MERITOCRACIA: IDEOLOGIA DO PRIVILÉGIO ; Rui Leitao
MERITOCRACIA: IDEOLOGIA DO PRIVILÉGIO
Vivemos em um país marcado por desigualdades estruturais profundas, herdadas de um passado colonial, escravocrata e autoritário, que continuam a moldar e limitar as trajetórias sociais. Ainda assim, difunde-se a ideia de que o esforço individual seria suficiente para prosperar na vida. Essa narrativa atende pelo nome de meritocracia. O termo foi cunhado em 1958 por Michael Young, no livro A Ascensão da Meritocracia, como uma crítica às sociedades que definem as posições sociais a partir do desempenho, descrevendo-a como um sistema que divide a sociedade entre “vencedores arrogantes e perdedores amargurados”.
O discurso neoliberal e conservador sustenta que todos são livres para competir, investir em si mesmos e colher os frutos do próprio esforço, ignorando deliberadamente a realidade concreta de milhões de brasileiros que, mesmo com dedicação, não conseguem romper o cíclo da pobreza. Trata-se de uma ideologia que converte privilégios históricos em mérito individual, naturalizando desigualdades e estimulando a competição entre desiguais. Mérito sem igualdade de oportunidades não produz justiça social; legitima o privilégio.
A meritocracia funciona como instrumento de dominação simbólica ao deslocar a responsabilidade das desigualdades do Estado e do sistema econômico para o indivíduo, absolvendo as elites de qualquer compromisso com a justiça social. É imperativo fortalecer políticas públicas de proteção social e romper com a hegemonia neoliberal consolidada nas últimas décadas, marcada por flexibilização trabalhista, precarização do emprego, desmonte de direitos sociais e financeirização da economia, que subordina o trabalho ao capital e amplia a concentração de renda.
A linha de largada nunca foi igualitária. Os pobres enfrentam obstáculos estruturais como educação precária, exclusão territorial, racismo, patriarcado e ausência de políticas públicas consistentes. O resultado é uma desigualdade ainda maior na linha de chegada, perpetuando a exclusão social.
Os defensores da meritocracia acusam as políticas de inclusão de assistencialismo, enquanto trabalham para corroer o Estado de bem-estar social e preservar privilégios. Michael Sandel, em A Tirania do Mérito, demonstra como esse discurso aprofunda a polarização, desvaloriza o trabalho digno e glorifica apenas o sucesso dos “vencedores”, culpabilizando os “perdedores” e intensificando a exploração do trabalho.
A meritocracia converte-se, assim, em ideologia funcional ao capitalismo contemporâneo, ao fragmentar a solidariedade social e enfraquecer a luta coletiva por direitos. Se quisermos construir uma sociedade verdadeiramente democrática, é fundamental uma educação pública emancipadora e políticas que promovam equidade, diversidade e inclusão, substituindo a competição predatória pela cooperação e pela dignidade humana.
www.reporteriedoferreira.com.br/Rui Leitao- advogado, jornalista, poeta, escritor


