A Nova Escalada Intervencionista Por Rui Leitao
A Nova Escalada Intervencionista Por Rui Leitao
Os Estados Unidos se valeram do colapso da União Soviética, em 1991, para intensificar suas políticas intervencionistas na África, na Europa Oriental e no Oriente Médio. O conflito ideológico que dividiu o mundo entre os polos capitalista e comunista, no pós-Segunda Guerra Mundial, perdeu força, mas não eliminou o intervencionismo como instrumento de poder. Tanto EUA quanto URSS recorreram, ao longo do tempo, a intervenções políticas, econômicas e militares para preservar interesses estratégicos e ampliar suas áreas de influência. Estima-se que, entre 1776 e 2026, os Estados Unidos tenham realizado cerca de 400 intervenções militares, sendo aproximadamente metade delas no período pós-Guerra Fria.
O governo Trump 2.0 reforça uma política externa orientada pelo lema America First, resgatando princípios da Doutrina Monroe e do Corolário Roosevelt para reafirmar a primazia dos EUA no Hemisfério Ocidental. Trump busca se colocar como uma espécie de “polícia hemisférica”, legitimando intervenções por meio de pressões diplomáticas, sanções econômicas, confisco de ativos, processos judiciais em jurisdições estrangeiras e, quando julga necessário, pelo uso direto da força. A crescente presença chinesa como principal parceiro comercial da América Latina representa um desafio adicional à hegemonia estadunidense no continente.
Observa-se, assim, um esforço explícito do atual governo norte-americano para ampliar o envolvimento dos EUA nas Américas, combinando políticas protecionistas com medidas agressivas de deportação. A estratégia intervencionista tem sido pouco dissimulada, revelando a intenção de reorganizar a ordem hemisférica sob liderança exclusiva de Washington. No segundo mandato, Trump demonstra disposição em expandir e consolidar a influência dos Estados Unidos na região.
Essa escalada da política externa de Washington normaliza o uso unilateral da força em uma região historicamente marcada por intervenções, tutelas e recorrentes ameaças à soberania. O ataque à soberania da Venezuela exemplifica essa postura, ao violar princípios do direito internacional que proíbem o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política dos Estados. Subordina-se a legalidade à capacidade de intervenção, enquanto a noção de segurança passa a ser definida de forma unilateral.
Não se trata apenas de um impasse geopolítico, mas de uma ameaça à democracia, ao privilegiar a coerção em detrimento da diplomacia. Soberania não é o direito do mais forte impor limites aos demais. Nenhum hemisfério pode ser tratado como propriedade exclusiva de um único povo, e nenhuma liberdade se sustenta quando a soberania se transforma em concessão. O cenário torna-se ainda mais preocupante diante da ascensão de lideranças como Javier Milei, na Argentina, e ayib NBukele, em El Salvador, que adotam retóricas alinhadas ao trumpismo, contribuindo para o fortalecimento da extrema direita na América Latina.Milçei;
Argentina;
O precedente venezuelano pode estimular novas intervenções sob o pretexto do combate ao narcotráfico ou da estabilização política, esvaziando o debate democrático e marginalizando o multilateralismo. Os fundamentos da ordem jurídica internacional construída no pós-Segunda Guerra Mundial vêm sendo colocados em xeque, produzindo instabilidade e subordinação política. Há claros indícios de que o intervencionismo norte-americano na América Latina, sob o governo Trump, passa por uma reconfiguração legitimada pela linguagem do contraterrorismo e da segurança transnacional.
www.reporteriedoferreira.com.br Rui Leitao- advogado, jornalista, poeta, escritor


