O LOBO EM PELE DE CORDEIRO; Rui Leitao
Fui ao dicionário verificar o que realmente significa o termo “terrível”. E vejam o que constatei: terrível é sinônimo de assustador, muito ruim, doloroso; aquilo que causa grande temor ou sofrimento. Então, fiquei a me perguntar: o que essa qualidade tem a ver com o Evangelho? Nada. O Evangelho de Cristo prega o amor, a concórdia, a fraternidade, a paz de espírito e a convivência harmoniosa entre as pessoas, por mais diferentes que possam ser. Foi então que passei a compreender melhor a classificação dada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro ao ministro que indicou para o STF — Supremo Tribunal Federal , o pastor André Mendonça: “terrivelmente evangélico”. Não me assustei na época, porque não conseguia imaginar que alguém que se apresentasse como pregador do Evangelho pudesse se tornar uma ameaça, um promotor de tensões, um provocador de guerras fratricidas, um incendiário, um incentivador do caos. Mas a mensagem talvez estivesse mais clara do que parecia.
O uso do Evangelho nessa afirmação poderia esconder propósitos políticos que, mais tarde, se revelariam incompatíveis com os princípios que o próprio Evangelho proclama. Seria difícil acreditar que uma pessoa que proclama a Palavra de Cristo pudesse carregar em sua personalidade o espírito da vingança, do ódio, da beligerância e do temor. Fomos enganados mais uma vez. O “terrivelmente evangélico” pode se revelar, assim, como um lobo em pele de cordeiro. Com sua voz mansa e sua aparência de homem de fé, pode colocar em prática ações que não condizem com aquilo que anunciou o “Filho de Deus”.
Chegou à mais alta Corte de Justiça do país com uma trajetória que, aos olhos dos que têm consciência critica, passou a ser associada à produção de perturbações institucionais, ao questionamento de princípios de justiça e à defesa de interesses políticos que não necessariamente coincidem com os valores de paz social, respeito às leis e proteção dos mais necessitados. Faz da sua missão pastoral, pasmem!, um instrumento de atuação política, buscando influenciar consciências e conquistar seguidores para uma visão de sociedade que pode entrar em choque com os fundamentos do Estado Democrático de Direito. E há aqueles que, de forma irresponsável e distante dos preceitos básicos do Evangelho, ainda o veem como um “ungido” de Deus. O ex-presidente não mentiu. Pelo menos dessa vez. Ele é, de fato, “terrível”. Terrível, porém, não deveria ser sinônimo de evangélico. E talvez esteja justamente aí uma das estratégias mais perigosas da extrema direita: apropriar-se do nome de Deus para legitimar inclinações autoritárias, estimular confrontos e impor vontades que contrariam a legalidade e os princípios que sustentam um Estado Democrático de Direito. Não é esse o Evangelho que leio e procuro seguir.


