MEMÓRIA ATIVA Por Gilvan de Brito
Há dez anos publiquei aqui no FACE um comentário sobre o meteorito que passou sobre a minha cabeça, soltando labaredas, à véspera de São João. Hoje, depois de tanto tempo, vejo esta publicação, enviada, ao lado de outras, diversas, sobre os mais variados assuntos. De vez em quando eles fazem isso comigo, e eu gosto de rememorar esses escritos. Pelo motivo, vou republicá-lo, a seguir:
O METEORITO
Gilvan de Brito
Compartilhado com: Público
Meu caro Tarcísio Pereira, tomei ao pé da letra a sugestão que você me fez a respeito de um comentário que publiquei no FACE falando de um meteorito que vi, quando era menino, passando sobre o bairro da Torre e largando labaredas no ar. Não fiz um conto de São João, como você propôs, mas uma fábula, que segue abaixo para o seu conhecimento:

O MENINO E O SANTO
FÁBULA DE GILVAN DE BRITO
O menino ouvia falar que São João nunca havia tomado conhecimento dos festejos que se faziam na Terra, em sua homenagem, nos dias 23 e 24 de junho de cada ano. As pessoas acendiam fogueiras, dançavam forró, baião, xote e quadrilha junina, soltavam vários tipos de fogos de artifício e balões coloridos, deglutiam pamonhas, canjica, mungunzá e bolo de milho verde. O que fazer para despertar o santo? Imaginava que, talvez, uma bomba de alto teor pudesse acordá-lo, mas o barulho das bombinhas que ouvia não chegava ao quarteirão mais próximo. Então tomou a iniciativa de acordar o santo com os recursos de que dispunha. Foi ao seu quarto, quebrou o cofrinho de barro em formato de um porco e saiu direto para o bazar de fogos do seu Clidineu, com todas as suas economias, suficientes apenas para a compra de quatro bombas do tipo “arrasa-quarteirão”. Foi até a pracinha de São Gonçalo e solicitou de dois adultos conhecidos que soltassem as quatro bombas de uma só vez, e pediu um retardo de cinco minutos.
Correu para casa, sentou-se no batente que dava para a rua de terra batida e algum tempo depois ouviu uma grande explosão provocada pelos seus petardos. Foi um grande barulho, mas insuficiente para atingir o espaço, segundo imaginou, porque não repercutiu em eco. Frustrado por não ter atingido o alvo, começou a pensar noutra alternativa. Mas restava uma esperança: veio-lhe à memória a matéria que havia lido numa revistinha do SESI, mandada para seu pai pelo Sindicato, que falava de um lugar chamado “Mitologia Nórdica”, onde existiam vários deuses. Um deles era Thor, filho de Odin, o deus dos raios e trovões, que provocava extraordinários estrondos em tudo que tocava com o seu martelo. Pensou em fazer uma prece para o deus do trovão, mas não sabia rezar, vinha de uma família de ateus. Então resolveu fazer um pedido ao deus Thor, para que desse uma martelada com toda força em qualquer coisa que pudesse provocar o maior estrondo de que se ouvira falar. Não demorou um minuto quando foi surpreendido com uma bola de fogo que cortava o espaço, sobre a sua cabeça, largando enormes labaredas, no sentido oeste-leste, na direção do oceano Atlântico.
Tudo aconteceu em segundos, e a bola de fogo, uma réplica das estrelas cadentes que via riscar os céus, sendo aquela, porém, de tamanho muito avantajado, desapareceu após fazer um barulho parecido com o de um tecido de seda sendo rasgada: shsssssssss. Enquanto ruminava sobre a notável aparição sobre sua cabeça, ouviu, trinta segundos após, uma grande explosão, a maior que já ouvira em toda a vida, soprada das bandas da praia de Tambau, que provocou um eco prolongado: bummmmmm-bummmmm-bummmm-bummm-bumm-bum. Pulou de alegria, deu um murro no ar com o punho cerrado, como faziam os jogadores de futebol após marcar um gol. Era tudo de que precisava para acordar São João do sono que provocava a suspensão de suas atividades corporais por 48 horas, justamente nos dias em que os habitantes do bairro da Torre lhe prestavam essa fantástica reverência. Agradecido, dirigiu-se ao deus Thor, informando-lhe que a lasca que ele retirara da Lua, com a sua violenta martelada, foi suficiente para provocar uma explosão capaz de acordar o santo.
MORAL DA HISTÓRIA (que seja feita pelo leitor).
www.reporteriedoferreira.com.br/ Gilvan de Brito, advogado, jornalista, poeta, escritor