Os golpistas não desistem; Rui Leitao
Os golpistas não desistem. Derrotados nas urnas e incapazes de conviver com as regras da democracia, continuam conspirando contra o Estado Democrático de Direito e alimentando estratégias de desestabilização institucional. O que está por trás dessas ações não é apenas o inconformismo de grupos radicais, mas a persistência de um projeto político que, em sintonia com setores da extrema direita globalizada, não aceita a democracia quando o resultado das urnas contraria seus interesses.
A operação “Rede Interrompida”, deflagrada ontem pela Polícia Civil do Distrito Federal, é mais um episódio que merece a atenção de todos os brasileiros. A ação cumpriu medidas cautelares contra oito investigados suspeitos de integrar uma organização criminosa que estaria planejando ataques em Brasília durante o período eleitoral. De acordo com as investigações, os suspeitos mantinham conversas nas quais articulavam ações como invasões de prédios públicos, definição de alvos, formação de grupos táticos e recrutamento de novos participantes. O grupo estaria espalhado por cinco estados da Federação: Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul.
Se confirmadas as suspeitas, não estaremos diante de simples manifestações de inconformismo político. O que aparece é uma estrutura organizada, com planejamento e divisão de tarefas, voltada para provocar instabilidade e criar um ambiente de caos capaz de pressionar as instituições e ameaçar a ordem democrática. É exatamente esse o método que os golpistas costumam adotar: primeiro, espalham a desconfiança; depois, atacam as instituições; em seguida, estimulam a radicalização e, por fim, tentam criar o ambiente de convulsão social que possa justificar uma ruptura democrática. O caos, para eles, não é uma consequência indesejada. É parte da estratégia. O Brasil já conhece esse roteiro. Vimos a tentativa de deslegitimar as urnas eletrônicas, a disseminação sistemática de mentiras, os acampamentos diante de quartéis, os pedidos de intervenção militar e, finalmente, a tentativa de invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023. O que se imaginava ser o último capítulo daquela aventura golpista pode, agora, estar revelando novos desdobramentos. Por isso, a sociedade brasileira precisa permanecer vigilante.
A democracia não pode ser tratada como um regime que só merece respeito quando atende aos interesses de quem está no poder ou de quem pretende conquistá-lo. Quem perde uma eleição deve aceitar o resultado e se preparar para disputar a próxima. O que não pode é tentar substituir a vontade popular pela violência, pelo terrorismo político ou pela conspiração contra as instituições. O Estado Democrático de Direito precisa responder com firmeza, dentro da lei, a qualquer tentativa de ruptura. Investigar, responsabilizar e punir, quando houver provas, não é perseguir adversários políticos. É defender a democracia. Os golpistas podem até insistir em suas tramas, mas a democracia brasileira não pode continuar concedendo espaço àqueles que pretendem destruí-la por dentro. O Brasil precisa deixar claro que divergência política é legítima; conspiração contra as instituições, não. A liberdade de expressão é um direito; a violência política, não. A disputa pelo poder se faz pelo voto; nunca pela força. A democracia é uma construção permanente. E, diante daqueles que insistem em ameaçá-la, a resposta das instituições e da sociedade deve ser uma só: nenhum passo atrás na defesa da liberdade, do voto popular e do Estado Democrático de Direito.
www.reporteriedoferreiras.com.br/ Rui Leitão- advogado, jornalista, poeta, escritor


