Uma cerimônia de vassalagem Por Rui Leitao 

Uma cerimônia de vassalagem Por Rui Leitao

 

​Na manifestação das paixões e dos afetos, surge uma figura que tem se evidenciado no mundo da política contemporânea: o vassalo. Embora originário do feudalismo medieval, o termo atualmente descreve posturas de profunda submissão política. O mais preocupante é que esse comportamento vem ganhando uma dimensão coletiva, especialmente em movimentos de extrema direita. ​O vassalo faz questão de demonstrar publicamente sua fidelidade, como se precisasse afirmar uma devoção cega para conquistar a atenção recíproca de seu líder. Afinal, a vassalagem é uma relação bilateral, e não apenas uma submissão unilateral: na cerimônia tradicional, os compromissos de subserviência eram confirmados por meio de rituais, gestos e falas explícitas. Na modernidade, o processo é semelhante. O vassalo se satisfaz na subserviência, enquanto o receptor de tais humilhações se compraz no próprio poder. ​Tais ocorrências têm se tornado frequentes na prática política recente, especialmente nas relações internacionais.

 

A política do “America First”, implementada pelo presidente Donald Trump nos Estados Unidos, tem estimulado lideranças políticas brasileiras a adotarem atitudes que causam perplexidade. Usar o boné com o slogan “Make America Great Again”, bater continência para a bandeira norte-americana e colocar-se na posição de idólatra de um chefe de Estado estrangeiro são episódios que sacrificam e esvaziam a ideia de soberania nacional. ​Recentemente, assistimos, com um inevitável sentimento de vergonha alheia, a uma típica cerimônia de vassalagem. Um expoente da extrema direita brasileira protagonizou uma cena constrangedora ao posar de forma submissa diante de Trump, em um encontro arranjado de última hora que durou apenas o tempo necessário para um registro fotográfico. Faltou, apenas, o pedido de autógrafo de um fã ardoroso. ​

 

Diante disso, cabe questionar: não parece estranho que alguém se considere parte de um império do qual, de fato, não integra? O problema central é que esse tipo de vassalo olha para os Estados Unidos como se aquela fosse a sua verdadeira pátria. Contudo, Washington nunca o considerará um aliado formal, mas apenas uma peça alinhada aos interesses do império ianque. ​Essa postura ficou evidente quando, em um evento nos EUA, o referido político proferiu um discurso em inglês oferecendo minerais críticos e terras raras brasileiras como a “solução da América para quebrar a dependência da China”. Sem qualquer constrangimento, mostrou-se disposto a submeter os interesses soberanos, econômicos e estratégicos do Brasil às diretrizes norte-americanas em troca de mero capital político para sua campanha eleitoral. Tratou-se de uma tentativa desesperada de convencer o cenário político americano a interferir no processo eleitoral brasileiro a seu favor. A cerimônia de vassalagem, ao que parece, não ofereceu os resultados práticos esperados. Pelo contrário: deixou ainda mais explícito o seu propósito entreguista. Só não enxerga essa realidade quem, como ele, nutre mais amor pelos Estados Unidos do que pelo próprio Brasil.

​ www.reporteriedoferreira.com.br/Rui Leitão

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