NÃO FOI UMA MENTIRA DE PRIMEIRO DE ABRIL
O fato é que o golpe militar de 1964 se consolidou, com força, em primeiro de abril. No propósito de manipular a memória coletiva, a alta cúpula das Forças Armadas decidiu adotar o dia 31 de Março como a data em que aconteceu, o que a extrema direita batizou como uma “revolução”. Assim procuram evitar a associação do acontecimento ao “dia da mentira”.
É preciso relembrar que o marco central do golpe foi o deslocamento do então Presidente João Goulart para o Rio Grande do Sul, ocorrido no dia primeiro de abril, o que fez com que o Congresso Nacional decretasse a vacância do cargo, instalando o início de mais de duas décadas de uma ditadura militar. Até pouco depois do meio-dia de 1º de abril, João Goulart permanecia despachando normalmente no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Como poderia ter sido derrubado na véspera, 31 de março?
Portanto, não há dúvidas de que o golpe se confirmou no “dia da mentira”. Há declarações de oficiais de alta patente do Exército brasileiro que ratificam essa afirmação. O General Osvaldo Cordeiro de Farias, por exemplo, à época, mencionou que “O Exército dormiu janguista no dia 31 e acordou revolucionário no dia 1º”. Embora se saiba que o Exército nunca foi janguista.
A democracia brasileira foi ceifada num dia em que nos acostumamos a pregar peças uns aos outros, espalhando boatos em tom de brincadeiras, celebrando o dia da mentira. Seria muito bom que as notícias que recebíamos naquele dia não passassem de informações inverídicas, bem adequadas à data festejada. A tragédia histórica tornava-se uma realidade, infelizmente. A mentira que continua sendo insistentemente proclamada é de que em 31 de Março o Brasil viveu um ato heróico revolucionário, que nos livrou da implantação de um regime comunista. Duas mentiras difundidas ao mesmo tempo: nem foi uma revolução, foi um golpe. Nem a democracia deixou de existir em nosso país no dia 31 de março. Foi em primeiro de abril, dia da mentira.
Para a historiografia séria, produzida a partir de fontes documentais fidedignas, não há dúvidas quanto à data oficial do golpe militar. Ou civil-militar, como também é reconhecido. Sim, porque boa parte da sociedade civil organizada apoiou o movimento golpista militar, imaginando que as Forças Armadas fariam uma intervenção pontual, e que as eleições presidenciais previstas para 1965, seriam realizadas normalmente. Líderes políticos como Juscelino Kubitschek, Ademar de Barros e Carlos Lacerda, dentre outros menos conhecidos, logo perceberam que foram usados na contribuição da adoção de práticas arbitrárias contra a população civil. Ao se manifestarem contra, porque se sentiram enganados, foram presos e cassados. Os militares gostaram da “brincadeira” e resistiram por mais de vinte anos a devolver a nação ao Estado Democrático de Direito. O interessante é que o General Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª. Região Militar, ao designar o General Antônio Carlos Muricy, lotado no Rio de Janeiro, para ir à frente das tropas mineiras em direção à capital fluminense no dia 31 de Março, lhe enviou a seguinte senha: “começou a brincadeira”, como orientação para se dirigir a Juiz de Fora e cumprir a missão que lhe estava sendo confiada. Quem falou, inicialmente, que era uma “brincadeira”, foi o próprio General Olimpio Mourão. Uma “brincadeira” de muito mau gosto, diga-se de passagem.
Como teria sido bom se realmente tudo não tivesse passado de uma brincadeira do dia da mentira. Mas não, o intervencionismo militarista que se estabeleceu, atacou por longos vinte e um anos os direitos democráticos em nosso país. Tivemos que nos submeter às experiências dolorosas de acompanhar acontecimentos como prisões, torturas, assassinatos, cassações, exílios, desaparecimentos forçados, demissão de grevistas, intervenções em universidades e sindicatos, censura à imprensa e às manifestações culturais, rompimento total da ordem constitucional e legal vigente e uma política econômica de contenção de salários e concentração de renda.
Que essa História não se repita. É necessário que continuemos atentos, porque a extrema direita não “dorme de touca”. Conseguimos, pelo menos, evitar que o pior voltasse a acontecer, mas não podemos ficar de braços cruzados. Continuemos na resistência.
Rui Leitão



