As estatísticas que movimentam os Hospitais de Trauma no Brasil não devem ser lidas apenas como números frios de prontuários; elas representam um chamado urgente para a ação integrada de toda a sociedade. Como Observadora Certificada do ONSV, proponho uma análise que conecta a nossa realidade local às maiores diretrizes de saúde pública e direitos humanos do planeta, preconizadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Se tomarmos como base o cenário do estado da Paraíba, os dados de sinistros de trânsito registrados entre janeiro e maio de 2026 expõem a necessidade de um esforço coletivo contínuo: foram 9.770 atendimentos de urgência nos dois Hospitais de Trauma em apenas 151 dias. Trazer a estatística para a realidade do relógio revela o tamanho do desafio: a cada 22 minutos, uma nova ambulância cruza os portões do Trauma trazendo uma vítima das nossas vias.
O cenário exige atenção especial voltada aos motociclistas, responsáveis por 85,7% dos casos — um fluxo que média 55 pilotos feridos a cada 24 horas. O impacto também atinge de forma sensível os pedestres (com média de 3 atropelamentos diários) e os ciclistas (cerca de 3 registros por dia). Mais do que feridos, o trânsito local registra uma média de duas perdas fatais diárias. São vidas interrompidas em caminhos comuns de trabalho, estudo e convivência familiar.
O Fator Humano e a Prevenção Científica
Para além dos números, a engenharia de trânsito moderna e a educação viária nos ensinam que a maioria desses sinistros está ligada a fatores humanos previsíveis e, portanto, perfeitamente evitáveis. Três grandes fatores de risco merecem destaque na construção de políticas de prevenção:
- A Distração Cognitiva: O uso do celular e de fones de ouvido, mesmo por pedestres ou condutores com as mãos no volante, desconecta a mente da via (fenômeno conhecido como cegueira por desatenção), impedindo o cérebro de processar a presença de usuários menores.
- Os Pontos Cegos Estruturais: As colunas dianteiras dos veículos modernos, embora protejam o motorista internamente, bloqueiam a visão periférica em curvas e rotatórias, exigindo que o condutor adote a prática de mover o corpo para checar além do metal.
- A Velocidade Incompatível: Conforme o veículo acelera, o campo visual humano sofre o “efeito túnel”, estreitando-se drasticamente e impedindo que o motorista enxergue pedestres nas calçadas ou ciclistas nas bordas da pista.
Caminhos e Sugestões para o Futuro: O Alinhamento Global
Como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que os sinistros custam cerca de R$ 50 bilhões anuais ao Brasil — impactando severamente o orçamento do SUS —, investir em educação e prevenção não é apenas uma escolha humanitária, mas uma estratégia econômica inteligente para o fortalecimento do Estado.
Para alcançarmos as metas da Segunda Década de Ação para a Segurança Viária da ONU/OMS, que visa reduzir em 50% as mortes no trânsito até 2030, e cumprirmos as diretrizes do UNICEF de proteção a crianças e adolescentes no entorno escolar, sugiro três pilares práticos de atuação:
- Educação Viária Continuada nas Escolas: A implementação de projetos pedagógicos contínuos, como o que estamos iniciando na Escola Estadual Professora Maria Jacy Costa, que engaja ativamente mais de 350 jovens do 9º ao 3º ano, transformando estudantes em multiplicadores da segurança.
- Fortalecimento de Campanhas Educativas de Alto Impacto: Substituir avisos rápidos por campanhas institucionais robustas nos meios de comunicação, que expliquem de forma clara e pausada os riscos da velocidade e da combinação de álcool e direção.
- Adoção da Cultura de Paz: Disseminar o princípio de que o trânsito é um espaço coletivo de convivência, onde o veículo maior tem a obrigação legal e moral de proteger o menor, e onde a empatia deve prevalecer sobre a pressa.
A preservação da vida nas ruas depende da nossa capacidade de unir forças. Quando governos, escolas, órgãos técnicos e cidadãos trabalham juntos, nós deixamos de contar minutos de dor nos hospitais e passamos a celebrar trajetórias seguras de volta para casa.
AUTORA: Abimadabe Vieira – Educadora de Trânsito e Observadora Certificada pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV)
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