O Patriotismo Seletivo e a Hierarquia dos Altares; Rui Leitao

O Patriotismo Seletivo e a Hierarquia dos Altares; Rui Leitao

​É, no mínimo, estranha, para não utilizarmos outro adjetivo, a forma como os irmãos Bolsonaro, com grande evidência no cenário político atual, concluem suas declarações públicas. Sempre finalizam rogando que “Deus abençoe a América e Deus abençoe o Brasil”. Colocam as bênçãos divinas prioritariamente como necessárias para os Estados Unidos, deixando o país em que nasceram em segundo plano. Logo eles, que se proclamam, de maneira enfática, patriotas. O mais grave é que um deles lançou candidatura à Presidência da República.
​O discurso político dessas personagens vem colocando em dúvida a identidade nacional da ala vinculada à extrema-direita brasileira. Ao invés de exaltarem a própria pátria, optam por incluir primeiramente outra nação ao invocar proteção, paz, prosperidade e boas energias como dádivas ou graças emanadas por Deus. ​Essa retórica apresenta uma clara incongruência com o conceito de patriotismo. Quando citam a “América” antes do Brasil, fica evidente a intenção de estabelecer uma hierarquia simbólica, como se existisse uma subordinação cultural ou política, colocando os interesses ou o destino de uma nação estrangeira em primeiro lugar.
​O nacionalismo pressupõe a máxima “o meu país acima de tudo”. O interessante é que, nas campanhas eleitorais em que disputou o cargo maior do Executivo nacional, o líder máximo do bolsonarismo adotou como slogan “Brasil acima de tudo”. Não é o que os seus filhos estão defendendo quando deixam explícito um desalinhamento com a soberania nacional. O que se verifica, a partir dessas manifestações finais em seus pronunciamentos, é uma declaração de princípios geopolíticos e ideológicos. Fica muito claro que a frase “Deus abençoe a América; Deus abençoe o Brasil” reproduz uma tradição política norte-americana, especialmente associada ao slogan “God Bless America”, e reforça uma identificação ideológica com setores conservadores dos Estados Unidos.
​Não conseguem esconder, então, que os EUA, sob a perspectiva da direita, são vistos como o farol do capitalismo e dos valores judaico-cristãos no Ocidente. Expressam, assim, uma afinidade com valores que associam à liberdade econômica, ao conservadorismo social e ao combate ao socialismo, marcas do imperialismo norte-americano.
​É impossível observar neutralidade na escolha das palavras desse discurso político. Ele soa, para os opositores, como um duplo sinalizador de “vira-latismo” ou patriotismo seletivo; e, para a base aliada, como um símbolo de conexão com o conservadorismo internacional e de rejeição ao globalismo de esquerda.
​É preciso compreender que a política se faz também através de gestos, palavras e narrativas. No momento em que lideranças insistem em repetir referências positivas a outro país, por vezes de forma exagerada, provocam questionamentos sobre a coerência entre o discurso nacionalista e tais manifestações de admiração internacional. É indiscutível que a frase se tornou um símbolo revelador da forte influência que o conservadorismo norte-americano exerce sobre parte da direita brasileira contemporânea.

​O Brasil deve conduzir sua política externa, econômica e estratégica de acordo com seus próprios interesses, evitando qualquer forma de subordinação a potências estrangeiras. A defesa da soberania nacional exige vigilância permanente contra o entreguismo. Este é um ano decisivo para a afirmação dessa posição patriótica.

www.reporteriedoferreira.com.br/Rui Leitão
RELACIONADOS
ÚLTIMAS