O efeito Trump na direita brasileira ;Cezar Leitao
O candidato da extrema-direita continua acreditando que Trump pode atuar como um eficaz cabo eleitoral na eleição presidencial no Brasil. Sua estratégia consiste em buscar constantemente criar fatos políticos que apontem para um apoio internacional ao seu nome, especialmente toda vez que enfrenta crises em sua campanha, tentando insistir em surfar na onda das decisões americanas nas relações com o nosso país. A estratégia, contudo, não tem dado muito certo, provocando um desarranjo no campo da direita, especialmente no grupo chamado de “bolsonarismo raiz”. Por outro lado, o governo Lula conseguiu mostrar novo fôlego em um momento no qual experimentava baixos índices de aprovação.
É prudente, no entanto, acompanhar os levantamentos dos diversos institutos de pesquisa nos próximos meses, para que possamos ter uma melhor ideia do potencial de influência do presidente norte-americano na eleição presidencial que acontecerá em outubro. Há quem diga que Trump, no mais das vezes, tem se mostrado um “cabo eleitoral involuntário” de Lula. Analistas avaliam que as medidas protecionistas e as tarifas impostas pelos EUA acabaram servindo para fortalecer o discurso de soberania nacional do presidente brasileiro. A habilidade diplomática em mitigar ou reverter sanções na relação com o governo americano tem impulsionado a popularidade do atual mandatário, o que a base governista explora como um trunfo político. Num ímpeto que aparentou desespero, o pré-candidato do PL viajou, de repente, para os Estados Unidos com o objetivo de se reunir com o presidente Donald Trump.
A viagem ocorreu em meio ao desgaste de sua imagem devido ao envolvimento com Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, instituição apontada como responsável por uma das maiores fraudes financeiras da história recente do país. Com o líder republicano, o candidato conseguiu, ao menos, garantir uma foto, em uma audiência que, segundo jornalistas, durou cerca de dez minutos. No entanto, obteve de alguns integrantes do governo americano o anúncio de que as facções criminosas PCC e Comando Vermelho passarão a ser consideradas grupos terroristas internacionais, medida que vem sendo comemorada pela extrema-direita como uma conquista para a sua pretensão eleitoral. Resta esperar se os efeitos práticos não serão semelhantes aos do “tarifaço”. É cedo para medir as consequências, embora o mercado financeiro já demonstre amuos e receios em relação à medida. Ainda assim, o movimento pode ser compreendido como uma decisão clara de Trump de entrar no duelo eleitoral brasileiro. É perceptível que essas incursões da extrema-direta nacional, ao reivindicarem a intervenção norte-americana em assuntos que dizem respeito estritamente ao nosso país, contribuíram para que o presidente Lula desfraldasse, com boa repercussão popular, a bandeira da defesa da soberania nacional.
Além disso, a extrema-direita mundial não tem colhido bons resultados a partir da ação de Donald Trump como cabo eleitoral, considerando os reveses sofridos por candidatos desse espectro ideológico na Hungria, Romênia, Polônia, Portugal, Espanha, França e Canadá. Nesses países, a proximidade com Trump gerou um efeito reverso: eleitores que já possuem um viés populista de direita tendem a responder de forma positiva, mas essa fidelidade raramente se expande para conquistar novos eleitores no centro do espectro político. Ainda assim, isso está longe de significar que a busca por esse apoio fortaleceria a campanha internamente. Integrantes da equipe próxima ao filho do ex-presidente vêm orientando os aliados a evitarem comentários excessivos sobre o republicano. A explicação matemática é simples: um quarto dos eleitores que pretendem votar no candidato da oposição rejeita a ideia de vê-lo alinhado automaticamente ao presidente dos Estados Unidos, indicando um potencial de perda de cerca de 11 pontos percentuais. No decorrer dos próximos quatro meses, saberemos efetivamente se essa projeção de Trump como um mau cabo eleitoral se manifestará também aqui em nosso país, afetando o desempenho do candidato da extrema-direita nacional. Tomara que sim, para o bem do Brasil.
www.reporteriedoferreira.com.br/Rui Leitão- advogado, jornalista, poeta, escritor



