Em defesa da própria consciência Por Rui Leitao

Em defesa da própria consciência

“Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.” A sentença de Nelson Rodrigues permanece atual porque aponta para um dos maiores riscos da vida intelectual: a abdicação do juízo próprio em favor do conforto oferecido pelas certezas coletivas. A adesão automática às ideias apresentadas como majoritárias dispensa o esforço da reflexão crítica e transforma o pensamento em simples ato de conformidade.

Nietzsche chamou de “homens de rebanho” aqueles que, por medo do isolamento ou por necessidade de aceitação, renunciam à própria singularidade. São indivíduos que falam, julgam e se posicionam a partir de padrões previamente estabelecidos, tomados como moralmente corretos e socialmente desejáveis. A repetição mecânica desses discursos — muitas vezes assimilados da propaganda midiática e de narrativas ideologicamente fabricadas — não apenas empobrece o debate público, como também revela uma progressiva atrofia da autonomia intelectual.

Desconfio das ideias que se apresentam como consensuais. A maioria, longe de ser critério de verdade, costuma funcionar como instrumento de acomodação. O próprio Nietzsche advertia que, ao perceber-se alinhado à maioria, o indivíduo deveria suspender o passo e interrogar a si mesmo. A verdade, quando existe, raramente se impõe por aclamação; ela exige conflito, desconforto e disposição para o dissenso.

Observo com certa melancolia pessoas próximas que, incapazes de organizar um pensamento próprio, limitam-se a reproduzir opiniões alheias, elevando-as à condição de dogmas. Nesse processo, o exercício da dúvida — fundamento de toda filosofia — é substituído pela obediência intelectual. O pensamento deixa de ser criação e passa a ser mera repetição.

Trair a própria consciência é a forma mais silenciosa de rendição. Não me disponho a fazê-lo. Enquanto não estiver racional e eticamente convencido daquilo que me é apresentado como verdade, preservarei minhas convicções, ainda que isso me coloque em posição minoritária. Já experimentei a censura velada, a desqualificação e o desconforto social por não partilhar do raciocínio dominante.

Ainda assim, prefiro o peso da solidão reflexiva à leveza irresponsável da concordância automática.
Recuso-me a integrar o rebanho. Aceito, sem angústia, a condição de minoria circunstancial, se isso me assegurar a integridade do pensamento. A paz que procuro não nasce da aceitação coletiva, mas da fidelidade à própria consciência — último território onde a liberdade ainda pode existir.

Rui Leitão

“Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.” A sentença de Nelson Rodrigues permanece atual porque aponta para um dos maiores riscos da vida intelectual: a abdicação do juízo próprio em favor do conforto oferecido pelas certezas coletivas. A adesão automática às ideias apresentadas como majoritárias dispensa o esforço da reflexão crítica e transforma o pensamento em simples ato de conformidade.

Nietzsche chamou de “homens de rebanho” aqueles que, por medo do isolamento ou por necessidade de aceitação, renunciam à própria singularidade. São indivíduos que falam, julgam e se posicionam a partir de padrões previamente estabelecidos, tomados como moralmente corretos e socialmente desejáveis. A repetição mecânica desses discursos — muitas vezes assimilados da propaganda midiática e de narrativas ideologicamente fabricadas — não apenas empobrece o debate público, como também revela uma progressiva atrofia da autonomia intelectual.

Desconfio das ideias que se apresentam como consensuais. A maioria, longe de ser critério de verdade, costuma funcionar como instrumento de acomodação. O próprio Nietzsche advertia que, ao perceber-se alinhado à maioria, o indivíduo deveria suspender o passo e interrogar a si mesmo. A verdade, quando existe, raramente se impõe por aclamação; ela exige conflito, desconforto e disposição para o dissenso.

Observo com certa melancolia pessoas próximas que, incapazes de organizar um pensamento próprio, limitam-se a reproduzir opiniões alheias, elevando-as à condição de dogmas. Nesse processo, o exercício da dúvida — fundamento de toda filosofia — é substituído pela obediência intelectual. O pensamento deixa de ser criação e passa a ser mera repetição.

Trair a própria consciência é a forma mais silenciosa de rendição. Não me disponho a fazê-lo. Enquanto não estiver racional e eticamente convencido daquilo que me é apresentado como verdade, preservarei minhas convicções, ainda que isso me coloque em posição minoritária. Já experimentei a censura velada, a desqualificação e o desconforto social por não partilhar do raciocínio dominante.

Ainda assim, prefiro o peso da solidão reflexiva à leveza irresponsável da concordância automática.
Recuso-me a integrar o rebanho. Aceito, sem angústia, a condição de minoria circunstancial, se isso me assegurar a integridade do pensamento. A paz que procuro não nasce da aceitação coletiva, mas da fidelidade à própria consciência — último território onde a liberdade ainda pode existir.

www.reporteriedoferreira.com.br Por Rui Leitão- advogado, jornalista, poeta, esscritor