Quase 80% das vítimas de suicídio na PB são homens: ‘Regras culturais’ podem ser fatores de risco, Ministério da Justiça

  • A Paraíba registrou 299 mortes por suicídio entre janeiro e novembro de 2025, segundo dados do Ministério da Justiça. Desse total, 238 vítimas eram homens e 61 mulheres, o que significa que 79,5% das mortes ocorreram entre o público masculino. O psicólogo e doutor em psicologia Linniker Moura afirma que normas culturais sobre a masculinidade podem ser fatores de risco, uma vez que fazem com que nem sempre o sofrimento seja reconhecido.

“Regras culturais sobre o que ‘é ser homem’ moldam como o sofrimento é reconhecido, comunicado e tratado, e isso altera o risco de a crise evoluir para um desfecho fatal. Em termos práticos, mensagens como ‘homem não chora’ tendem a treinar meninos para duas coisas ao mesmo tempo: 1) interpretar emoções como fraqueza, e 2) reduzir a procura por apoio quando a dor psíquica aparece. Esse custo é silencioso, porque o sofrimento não some; ele se desloca”.

No estado, João Pessoa foi o município com o maior número de suicídios, somando 45 mortes, seguida por Campina Grande, com 41 casos.

Em todo o Brasil, 16.088 mortes por suicídio foram registradas em 2025, das quais 12.550 foram de homens, representando 78% do total. O índice paraibano, portanto, ficou acima da média nacional.

Linniker Moura detalhou que questões como o reconhecimento do problema e o medo da vulnerabilidade impactam negativamente desde a procura por ajuda profissional até a permanência no tratamento.

“Em média, homens tendem a chegar mais tarde ao cuidado formal e a permanecer menos tempo em acompanhamento. A explicação mais útil é que há um funil de obstáculos: reconhecimento do problema, permissão interna para pedir ajuda, disponibilidade de serviço, acolhimento sem estigma e continuidade do cuidado. Em cada etapa, normas tradicionais de masculinidade podem aumentar o atrito, sobretudo a autossuficiência rígida e a ideia de que vulnerabilidade é fraqueza”.

A primeira campanha do ano da saúde, o Janeiro Branco, busca sensibilizar a população para a importância do bem-estar psicológico e estimular a busca por cuidados especializados quando necessários.

A escolha de janeiro simboliza “folhas em branco” para recomeços e metas, visando combater tabus e priorizar o bem-estar.

Sinais diferentes

Linniker Moura explica que, por vezes, o sofrimento psíquico em homens se apresenta de forma diferente das mulheres, como resultado da socialização masculina. Ao invés de tristeza aparente, demonstram outros sinais, como irritabilidade e abuso de álcool.

“Uma parte importante da literatura descreve que, em muitos homens, quadros depressivos podem se expressar com mais “sinais externalizantes” (sintomas que vão para fora, como irritabilidade, raiva, explosões, abuso de álcool, comportamento de risco), em vez de aparecerem apenas como tristeza e choro. Isso não significa que seja “uma depressão diferente biologicamente”, mas que o modo de mostrar e tolerar sofrimento é atravessado por socialização, estigma e expectativas sociais”.

O doutor em psicologia destaca também que homens tendem a buscar métodos mais letais durante crises, aumentando a probabilidade de morte.

“Eles tendem, em média, a usar métodos mais letais. Em termos epidemiológicos, isso altera o “caso-fatalidade” (a probabilidade de morrer dado que houve uma tentativa). Essa diferença de método é uma das explicações centrais para o padrão observado em muitos países e também em estudos com dados brasileiros, em que o suicídio masculino aparece várias vezes mais frequente do que o feminino. Ou seja, não é apenas “quem sofre mais” ou “quem pensa mais”, mas “o que acontece quando a crise encontra um meio letal disponível”.

Como prevenir

As idades e outros dados sobre as vítimas de suicídio não foram divulgados, no entanto, para além do gênero, o psicólogo Linniker Moura acrescenta fatores como renda, trabalho e questões LGBTQIAP+ como fatores de risco.

“Vale lembrar que gênero não atua sozinho. Risco de suicídio é sensível a fatores como desemprego e precarização, conflitos familiares, dor crônica, uso de álcool, violência, histórico de trauma, discriminação (incluindo contra homens LGBTQIA+), além de acesso desigual a serviços e falhas na continuidade do cuidado”.

Para a prevenção, portanto, ele cita a importância de aumentar o acesso ao cuidado de forma ampla, uma vez que problemas estruturais, além dos estereótipos de gênero, como desigualdades regionais, podem ser obstáculos ao início e continuidade do tratamento.

“Mesmo quando há motivação, barreiras como tempo, custo, distância, baixa oferta e desigualdades regionais limitam tratamento. Estudos sobre acesso ao tratamento de depressão no Brasil mostram prevalência relevante de acesso inadequado, sugerindo que melhorar rede, financiamento e logística também é prevenção de suicídio”.

Por fim, o doutor em psicologia fala sobre a importância da educação emocional desde a infância, para que homens não cresçam acreditando que não podem reconhecer emoções.

“Expressar não é apenas chorar; é letramento emocional: reconhecer sinais internos, nomear emoções, pedir ajuda sem sentir que se perde a dignidade, e aprender a regular raiva e frustração. Em termos técnicos, isso fortalece repertórios de regulação emocional e conexão social, dois fatores protetivos”.

Série histórica

A série histórica divulgada pelo Ministério da Justiça teve início em 2015. Naquele ano, o Brasil contabilizou 8.279 mortes por suicídio. Dez anos depois, em 2025, o número praticamente dobrou, alcançando 16.088 registros, o que representa um crescimento de 94,32%.

Ao longo desse período, o país somou 145.469 mortes, sendo 113.149 de homens, o equivalente a 77,7% do total, evidenciando a persistência do padrão masculino ao longo da década.

Na Paraíba, embora o crescimento também seja expressivo, ele ocorreu em ritmo inferior ao nacional. Em 2015, o estado registrou 194 mortes por suicídio. Em 2025, esse número subiu para 299, uma variação de 54,12%. Ainda assim, os dados revelam uma tendência contínua de alta.

Ao longo dos últimos dez anos, a Paraíba contabilizou 3.153 mortes por suicídio, das quais 2.416 foram de homens, correspondendo a 76,6% do total. O percentual acumulado estadual é ligeiramente inferior ao nacional, mas os números mais recentes mostram um avanço da participação masculina nas estatísticas.

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Ministério da Justiça se recusa a entregar dossiê dos antifascistas ao STF

 

“A atividade de Inteligência dedica-se a produzir conhecimentos para assessorar o processo decisório das autoridades públicas. Assim, é dever dizer que não há qualquer procedimento investigativo instaurado contra qualquer pessoa específica no âmbito da Seopi”, informou o ministério, que se recusou a entregar os dossiês sobre “movimentos antifascistas” ao STF

André Mendonça e Carmen Lúcia (Foto: Agência Brasil)

 

247 – Em informe endereçado à ministra do STF Carmen Lúcia nesta quinta-feira (6), o Ministério da Justiça além de não negar a existência de dossiês sobre os “movimentos antifascistas”, se recusou se recusou a enviar ao STF (Supremo Tribunal Federal) cópia dos tais dossiês feito pelo setor de inteligência da sua pasta sobre os policiais antifascismo e quatro “formadores de opinião”.

A pasta justificou não poder compartilhar dados de inteligência produzidas pela sua Secretaria de Operações Integradas (Seopi). “Não seria menos catastrófico abrir-se o acesso ao Poder Judiciário a relatórios de inteligência”, alega o ministério.

O ministro André Mendonça anexou pareceres que falam na suposta necessidade de preservar o sigilo de documentação produzida pelo Ministério – novamente, sem negar nem confirmar a existência do relatório.

“A mera possibilidade de que essas informações exorbitem os canais de inteligência e sejam escrutinadas por outros atores internos da República Federativa do Brasil – ainda que, em princípio, circunscrito ao âmbito do Supremo Tribunal Federal – já constitui circunstância apta a tisnar a reputação internacional do país e a impingir-lhe a pecha de ambiente inseguro para o trânsito de relatórios estratégicos”, diz um dos documentos encaminhados por Mendonça.

“A atividade de Inteligência dedica-se a produzir conhecimentos para assessorar o processo decisório das autoridades públicas. Assim, é dever dizer que não há qualquer procedimento investigativo instaurado contra qualquer pessoa específica no âmbito da Seopi, muito menos com caráter penal ou policial. Noutras palavras, não compete à Seopi produzir ‘dossiê’ contra nenhum cidadão e nem mesmo instaurar procedimentos de cunho inquisitorial”, reforçou a pasta.

O comunicado ainda afirma que a produção de relatórios é “atividade essencial para a segurança do Estado e dos cidadãos”, mas que nenhuma secretaria do órgão “se coloca à serviço de grupos, ideologias e objetivos mutáveis e sujeito às conjunturas político-partidárias”.

O recado enviado ao Supremo foi feito em resposta ao pedido de esclarecimentos por parte da ministra Carmen Lúcia sobre um dossiê elaborado pela Seopi contra 579 servidores federais e estaduais.

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