Memórias Paraibanas; Dez anos sem Livardo Alves

Jornalistas e músicos relembram vida e obra do compositor paraibano Livardo Alves, cuja morte completa 10 anos.

Sentado em um banco de praça do Ponto de Cem Réis, em João Pessoa, Livardo Alves inspeciona, com seu olhar metálico, o vaivém do povo na manhã de sexta-feira.

Com a vista turva (seus óculos foram roubados, como as cuecas da marchinha), o compositor está de pernas cruzadas e com o braço direito à espera dos ombros amigos que, há uma década, ouviram sua voz se calar para sempre.

Um deles, Joca do Acordeon, lembra-se de quando o conheceu na década de 1970, época em que ainda não era estátua, mas um talentoso músico de um ‘conjunto jovem’ da cidade.

“Desde então o paradeiro dele, à noite, era o viaduto do Ponto de Cem Réis. Ele sempre podia ser encontrado por lá”, conta o sanfoneiro, que gravou com Livardo os dois únicos CDs de sua carreira: Sol (1999) e Malandros do Morro (2002).

Saudoso, Joca se recorda também do temperamento benevolente do amigo: “Livardo sempre me visitava em casa, para conversarmos sobre música e tocarmos um pouquinho.

Tocar com ele era simples, bastava fazer o certo. Era o que importava”.

Quase sempre guardada para quando o carnaval chegar, a memória de Livardo também se perpetua nos hinos da maioria dos clubes de futebol paraibanos e em uma porção de sua obra ofuscada pela marchinha que é, segundo o jornalista Fernando Moura, senão a mais, uma das mais tocadas de todos os tempos.

“Livardo tinha duas características muito peculiares como compositor: a sofisticação poética e melódica unida a uma linguagem de extremo apelo popular. Algumas canções dele têm uma armação melódica que, equilibrada com esta outra característica, foi o que tornou sua carreira bem sucedida, embora não financeiramente”, conta Fernado Morais.

Para o jornalista, a própria Paraíba, de forma geral, “não acompanhou com o devido cuidado nem pousou um olhar mais carinhoso” na vasta obra de Livardo.

Como exemplo da faceta desconhecida de um dos nomes mais famosos da estirpe de artistas oriundos do Jaguaribe, Fernando Mouracita ‘Doces ervas’, “um hit muito tocado nos círculos boêmios e que tem uma forte conotação política”.

Outra é ‘O meu país’, feita em parceria com Orlando Tejo e Gilvan Alves, gravada por Zé Ramalho: “Este repertório político tinha uma visão social emblemática e fazia muita referência à terra, ao que se planta e ao que se colhe”, acrescenta.

“O que me chama muito a atenção, no que diz respeito a Livardo Alves, era a desenvoltura com que ele transitava, na música e no cotidiano, por tantos universos. Não é à toa que a sua estátua está no Ponto de Cem Réis: aquele lugar era, para ele, uma fonte de inspiração constante e um local que ele visitava de maneira religiosa. Era uma pessoa muito próxima do povo, que conhecia do engraxate ao desembargador. Uma figura muito natural e muito humilde cuja obra, se pudesse ser resumida em duas palavras seriam essas: versatilidade e inventividade”, testemunha o jornalista.

Publicação de Memórias Paraibanas

Em um dia como hoje, 16 de março de 2002, falecia em João Pessoa o compositor, cantor e jornalista paraibano Livardo Alves, aos 66 anos.
Nascido na capital paraibana em 21 de setembro de 1935, Livardo Alves construiu uma trajetória ligada à música popular e ao jornalismo. Trabalhou no jornal A União e também atuou na Rádio Tabajara, onde participou de atividades como cantor, locutor e repórter.
Como compositor, deixou um repertório amplo que inclui marchinhas de carnaval, sambas, baiões, cocos, xaxados e maracatus, além de composições inspiradas no cotidiano e na cultura paraibana. Entre suas músicas mais conhecidas está a irreverente “Marcha da Cueca”, que se tornou popular nos carnavais e ajudou a marcar sua imagem como compositor de humor e crítica social.
Em reconhecimento à sua contribuição cultural, Livardo Alves foi homenageado com uma estátua de bronze no Ponto de Cem Réis, no centro de João Pessoa — local onde costumava se reunir com amigos e artistas.

www.reporteriedoferreira.com.br /Jornal da Paraíba




LIVARDO ALVES – ÍCONE DOS CARNAVAIS PESSOENSES Por Rui Leitao

Publicado no jornal A UNIÃO edição de hoje

LIVARDO ALVES – ÍCONE DOS CARNAVAIS PESSOENSES

Foi um compositor de vários estilos musicais, desde as marchinhas de carnaval, a baiões, forrós, maracatus, e xaxado. Venceu dezenas de festivais na Paraíba e outros Estados, mas se orgulhava da conquista do prêmio Composição de Ouro ABC. Compôs hinos de clubes paraibanos, dentre os quais o Botafogo Futebol Clube de João Pessoa e da AABE – Associação Atlética Banco do Estado. Musicou várias peças teatrais: “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna; “Acima do Bem Querer”, de Luiz Marinho; “Viva Cordão Encarnado/ A chegada de Lampião no Inferno”, de Luiz Mendonça; e “A Cara do Povo do Jeito Que Ela É”, de Paulo Pontes.

Nasceu em 21 de setembro de 1935, no bairro de Jaguaribe, da capital paraibana, onde viveu até os 32 anos, quando se mudou para a Torre. Iniciou suas atividades profissionais na década de 50, no centenário jornal A UNIÃO,tendo atuado, primeiramente, na oficina, chegando a trabalhar como revisor e depois como redator. Em 1959 foi contratado pela Rádio Tabajara para a função de locutor do departamento de rádio-jornalismo.

Como compositor seus parceiros mais conhecidos foram Vital Farias, Gilvan de Brito, Parrá, Orlando Tejo, dentre outros. Artistas consagrados no cenário musical do Nordeste e do Brasil gravaram canções por ele compostas, como Ary Toledo, Abdias e sua Sanfona de Oito Baixos, Flávio José, Cachimbinho, o Grupo Pereira, Orquestra Metalúrgica Filipéia e Zé Ramalho. Seus maiores sucessos foram “É Mãe”, “Eu Vim de Lá Meu Pai”, “O Mundo Encantado do Circo”, “A Marcha da Cueca” que ganhou destaque no Brasil e no exterior, “Forrofunfá”, “Sagas Brasileiras”, “O Meu País”, “A Mulher do Aníbal”, “Brasil Moleque”,“O Canto de Tambiá” e “Doces Ervas”.

Faleceu em 14 de fevereiro de 2002, aos 66 anos de idade. Está imortalizado em estátua de bronze no tamanho natural, sentado em um banco, erigida na Praça Vidal de Negreiros, o Ponto de Cem Réis, próximo ao antigo Paraíba Palace Hotel, onde costumava frequentar. Em 2023, por propositura do vereador Marcos Henriques, a Câmara Municipal de João Pessoa aprovou, por unanimidade, a Lei Livardo Alves, que instituiu o serviço municipal de apoio ao autor e de proteção às obras autorais da Capital.

Um de seus grandes companheiros de jornada artística, Joca do Acordeon, relembrou que o conheceu na década 1970, quando integrava um conjunto jovem da cidade. Segundo o sanfoneiro: “Desde então o paradeiro de Livardo Alves, à noite, era o viaduto do Ponto de Cem Réis. Ele sempre podia ser encontrado por lá”, daí a razão de sua estátua ter sido ali colocada. O jornalista Fernando Moura assim o definiu: “Livardo tinha duas características muito peculiares como compositor: a sofisticação poética e melódica unida a uma linguagem de extremo apelo popular. Algumas canções dele têm uma armação melódica que, equilibrada com esta outra característica, foi o que tornou sua carreira bem sucedida, embora não financeiramente”.

Os carnavais de João Pessoa sentem a sua falta, mas sua estrela continua brilhando através de obra musical que nos legou.

Rui Leitão- Advogado, Jornalista, poeta e escritor




“CONHECIDO NESTA BOSTA”:  Escrito Por Gilvan de Brito

“CONHECIDO NESTA BOSTA”: Escrito Por Gilvan de Brito

 

CANTOR E COMPOSITOR:  LIVARDO ALVES

Quando fazíamos músicas numa noite qualquer de 1998, Livardo fez uma pausa e disse: “Gil, você precisa ouvir esta que eu fiz ontem, no interior, onde o locutor e até o secretário de educação insistiam em me chamar de Livaldo, no palco, durante o show. Contrariado, tentei lembrar aos dois o meu verdadeiro nome: Livardo, mas não adiantou nada.

E insistiram com o tratamento, Livaldo para lá, Livaldo para cá. Então eu fui me irritando, peguei o violão e criei uma música na hora. Veja como ficou: “Meu nome é Livardo/ Livardo Alves da Costa/ Conhecido nesta bosta/ Conhecido nesta bosta/ Eu canto o que o povo gosta/ Xote, forró e baião/ Canto as coisas da minha terra/ Canto as coisas do meu chão/ Convido Gilvan de Brito, convido também Chiquito/ Prá comigo dar um grito/ Lá no Ponto de Cem Réis/ E Oliveira de Panelas/ Prá cantar só coisas belas/ Com os outros menestréis/ Meu nome é Livardo.” Livardo era contemporizador, mas havia momentos em que ele reagia com determinação.

Esse foi um deles e por isso ganhou aplausos ao concluir a música. O povo entendeu a quem se dirigia. Eu tenho esta relíquia, gravada, que vou colocar, remasterizada, no nosso próximo disco (in memoriam) qualquer dia destes, com outras músicas inéditas que fizemos juntos.

www.reporteriedoferreira.com.br