A PRODUÇÃO CULTURAL BRASILEIRA NO EXILIO

A PRODUÇÃO CULTURAL BRASILEIRA NO EXILIO Por Rui Leitao

Houve um tempo no Brasil, não tão distante, que muitos compatriotas experimentaram as amarguras do exílio, a desagradável sensação de estar fora de casa. A perseguição política provocou a maior diáspora da história nacional. Alguns de forma voluntária, outros por punição, expulsos do país por se posicionarem contra o regime ditatorial instalado pelo golpe de 1964. As estimativas sobre exilados durante a ditadura militar variam entre 5 mil e 10 mil. Mas todos, sem exceção, ainda que vivendo uma situação de sofrimento, jamais abandonaram o pensamento crítico independente. Na distância da terra natal que os fazia sentirem-se estrangeiros, a todo instante, exaltavam a memória da pátria. Alguns dos desterrados jamais retornaram.

A escritora Lya Luft, em quatro dos seus romances, define que existe duas maneiras de compreender o “exílio”: o exílio como punição política contemporânea, ligada diretamente ao nacionalismo e às guerras e desavenças por ele provocadas, e o exílio como um estado subjetivo do ser, um estado espiritual de solidão, de incompreensão num meio estranho, de isolamento e deslocamento”. A dor da separação parece inspirar manifestações nostálgicas e românticas, provocadas por motivações controversas, a despeito da raiva, vergonha e humilhação a que o exilado esteja sendo submetido. O passado evocando muitas lembranças e produzindo a cultura do exílio, revelando autores, artistas e pensadores que registraram experiências vividas no degredo. Intelectuais exilados que colocaram nas páginas literárias e obras culturais, emoções, sonhos, desilusões, memórias e reminiscências do seu país.

O mais famoso poema de Gonçalves Dias, “Canção do Exilio”, escrito em julho de 1843, quando estava estudando Direito na Universidade de Coimbra, em Portugal, trata do tema. Com saudades de seu país, sentia-se exilado. Na última estrofe, o poeta expressa o seu desejo de regressar: “Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá;”. Publicado na sua obra literária “Primeiros Cantos”, em 1857, na primeira fase do Romantismo Brasileiro.

Grande parte das poesias de Ferreira Gullar foi escrita durante seu exílio no Chile, Peru e na Argentina, onde ficou até 1977. Nelas denunciava a incivil realidade social e política brasileira da época, assumindo o compromisso moral de lutar contra as injustiças sociais e a opressão. Tentando explicar a mensagem contida no “Poema Sujo”, ele assim se expressou: ”Na verdade, o poema não é político, mas um resgate do eu que havia vivido até então. É claro que tem a minha infância, tem São Luís… O poema vai resgatar toda a minha experiência de vida, na medida do possível, mas ele é na realidade reflexão sobre aquelas coisas. Ele não é simplesmente ‘ai que saudade que eu tenho da aurora da minha vida’… É uma reinvenção da própria vida. Uma coisa é você ter vivido, e outra coisa é você refletir sobre o que você viveu”.

No cenário musical e artístico brasileiro nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Cacá Diegues, Taiguara, Nara Leão e Augusto Boal se exilaram para escapar da perseguição do regime militar. Esses artistas exilados, paradoxalmente, se reinventaram e conquistaram prestígio internacional, como se vivessem um renascimento artístico no exterior. Souberam aproveitar a oportunidade, ainda que indesejada, do recomeço e da transformação. Apesar dos naturais traumatismos, o exílio foi, concomitantemente, um fator preponderante de enriquecimento cultural. Uma carga emotiva que inspirou a literatura do exílio. Expatriados, buscaram reproduzir nas suas obras musicais e artísticas, o país natal, paisagem, povo, comida, ritmos, a brasilidade pulsante em suas veias. E assim reconstruíam seus vínculos com a terra natal, sem estarem presos ao controle ideológico do sistema.

A música se transformou em um símbolo de resistência para os exilados. As canções escritas por brasileiros no exílio incentivavam as pessoas a reagirem contra à repressão.

www.reporteriedoferreira.com.br   Por Rui Leitão-advogado, jornalista, poeta,escritor




CANÇÕES QUE FALAM POR NÓS “MINHA HISTÓRIA”: Por Rui Leitao 

CANCOES QUE FALAM POR NÓS
“MINHA HISTÓRIA”: Por Rui Leitao
Nesta série de crônicas tenho procurado interpretar letras de canções genuinamente brasileiras, mas resolvi fugir à regra, em razão da profunda mensagem deixada na música “Minha história” de Chico Buarque. A sua gênese vem da Itália, nos anos de 1943, quando Lucio Dalla e Paola Pallottino, compuseram “Gesú Bambino”, que quer dizer “menino Jesus”. Fala sobre as mães solteiras, no período da Segunda Guerra Mundial, que engravidavam de soldados estrangeiros. Na letra os italianos procuraram observar o contexto na visão dos próprios filhos.
Chico, amigo de Dalla, decidiu adaptá-la à nossa realidade, tomando como cenário o cais de um porto. O protagonista da história, também chamado Jesus, é filho de uma prostituta, e vive o drama de não saber quem é o seu pai, que pode ser um dos muitos marinheiros que passaram pelos cabarés frequentados por sua mãe. Chico resolve colocar “Minha história” como título de sua versão. A censura da ditadura militar proibiu por um tempo a sua veiculação, por entendê-la atentatória aos bons costumes e à moral. Coisa de mentes doentias dos que tinham a responsabilidade de analisar a produção cultural da época.
“Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar/Eu só sei que falava e cheirava e gostava do mar/Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente/E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente…”
O menino convivia com sua dor, sua angústia de não conhecer pai, nem ter esperanças de conhecê-lo um dia. Só sabe que era um marinheiro, como tantos a que estava acostumado ver no ambiente portuário. Com as características próprias dos marujos, tatuagem nos braços, ouro nos dentes, e cheirando ao mar. Foi por um desses homens que sua mãe se apaixonou perdidamente e daí foi gerado. Fruto, portanto, de uma relação sem amor, circunstancial, comercial.
Nada fora da normalidade daquela ambiência. Os marinheiros transitam por lá e vão embora sem desejos de constituírem vínculos. Entretanto, sua mãe se apaixonara por um deles, que vem a ser o seu pai desconhecido. E nesse amor não correspondido, ela ficava horas a fio contemplando o mar, sonhando com seu retorno. A imagem de uma mulher que fazia do sexo profissão, desencantada, pobre, mal vestida, na esperança permanente de ver de volta aos seus braços aquele que continua no seu pensamento.
Ao nascer, sua mãe viu o filho como se fosse algo divino, um santo, como qualquer outra mãe. Acolheu-o envolto num manto, na ternura materna olhando-o com veneração. Lembra que quando ia colocá-lo para dormir ouvia como cantigas de ninar as músicas que faziam sucesso nas noites dos cabarés. Não conhecia canções de acalanto.
Ela parecia alucinada com a chegada do filho. Chamava a atenção de todos, tentando mostrar que ali estava alguém especial, diferente de qualquer outra criança. Para ela tinha algo de excepcional, sagrado. E foi por isso que resolveu colocar nele o nome de Jesus. Talvez para assim tentar afastá-lo do pecado original na sua concepção, redimir-se de alguma culpa pela forma como ele foi gerado.
A sua história entra em confronto com o nome que carrega. Sabe que não honra no seu comportamento e nas suas atitudes a importância do nome que lhe colocaram. A contradição: o pervertido, por força das companhias do cotidiano, amantes e ladrões, sendo chamado pelo nome de quem a humanidade reconhece como o filho de Deus feito homem. No entanto assim é tratado por todos, Menino Jesus. Quem sabe a intenção de sua mãe foi evitar que fosse chamado de outra forma como tantos outros em igual situação que moravam no porto. Pelo menos o livrou de ser apontado como o “filho da p…”.
www.reporteriedoferreira.com.br   Por  Rui Leitão- Jornalista, advogado e escritor