Bolsonaro e o teatro da prisão na Papuda para posar de mártir

O que está acontecendo é o roteiro conhecido da vitimização política, em que cada gesto é calculado para transformar um condenado em vítima

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Ibaneis e Bolsonaro
RAFAELA FELICCIANO/METRÓPOLES

Ibaneis e Bolsonaro

Às vésperas de o Supremo Tribunal Federal (STF) confirmar o cumprimento da pena de 27 anos e três meses de prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o país assiste a um espetáculo previsível. A visita de uma auxiliar do ministro Alexandre de Moraes à Papuda deflagrou uma guerra de ofícios e declarações entre o governo do Distrito Federal, parlamentares bolsonaristas e setores da esquerda local. Mas, por trás do ruído institucional, o enredo é claro: transformar o cárcere em palco político.

Bolsonaro e seus aliados não discutem mais a inocência — apenas o cenário da punição. A movimentação da senadora Damares Alves (Republicanos), o ofício do secretário de Administração Penitenciária e o “dossiê médico” preparado pela defesa do ex-presidente são peças de um mesmo roteiro. Cada uma delas mira um único objetivo: evitar que Bolsonaro seja visto atrás das grades, mesmo que por poucos dias, e, se isso ocorrer, garantir que o episódio seja retratado como uma humilhação imposta por Moraes.

Da narrativa ao cálculo político

A vitimização de Bolsonaro nunca foi espontânea — é um método político. Desde a facada de 2018, sua comunicação opera na fronteira entre o sofrimento e o heroísmo, o corpo como bandeira e a perseguição como combustível. O “piripaque” anunciado por advogados à imprensa e as falas dramáticas de Flávio Bolsonaro (PL) sobre “tortura” e “castigo” reforçam a estratégia de humanizar o pai para desumanizar o Judiciário.

Ibaneis Rocha, por sua vez, joga no fio da navalha. Ao mesmo tempo em que busca o apoio do clã Bolsonaro para sua candidatura ao Senado, teme ser o governador sob cujo comando o ex-presidente adoeceu ou — no limite — morreu na prisão. É a política transformada em paranoia.

O que realmente está em jogo

Seja qual for o desfecho, o episódio da Papuda marca um divisor simbólico: o bolsonarismo, antes sustentado pelo confronto, agora sobrevive pela autocomiseração. O homem que prometeu acabar com “mimimi” tornou-se o protagonista de um drama onde cada soluço e refluxo são convertidos em arma retórica.

Mais que uma disputa jurídica, o que se desenrola é uma batalha pela narrativa — e, nessa arena, Bolsonaro sempre soube como se manter em cena. Mesmo quando o palco tem grades.




Alexandre de Moraes é eleito presidente do TSE

Ministro do STF estará à frente das eleições e vai comandar tribunal até 2024

Ministro do STF, Alexandre de Moraes
Crédito: getty images

Ministro do STF, Alexandre de Moraes

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) elegeu, na noite desta terça-feira, o ministro Alexandre de Moraes como próximo presidente da Corte. Ele toma posse no próximo dia 16 de agosto e estará à frente do tribunal durante as eleições. Seu mandato como presidente do TSE vai até abril de 2024.

Alvo constante de ataques do presidente Jair Bolsonaro (PL), Moraes foi eleito por unanimidade, em uma votação simbólica, que também alçou à vice-presidência o ministro Ricardo Lewandowski.

Pela composição do TSE, a presidência e a vice-presidência sempre são ocupadas por ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O TSE é formado por, no mínimo, sete ministros. Três ministros são do STF, um dos quais é o presidente da Corte, dois ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), um dos quais é o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, e dois juristas vindos da classe dos advogados, nomeados pelo presidente da República. Todos eles têm um mandato de dois anos.

Moraes sucede à frente da Corte eleitoral o ministro Edson Fachin, que assumiu a presidência em fevereiro e teve a presidência mais resumida pelo fato de seu mandato no TSE expirar em agosto. Sua vaga será ocupada pela ministra Cármen Lúcia, que hoje está em uma das vagas de ministro substituto.

Após o anúncio da eleição, Fachin parabenizou os escolhidos e elogiou o diálogo e o trabalho em conjunto feito pelos dois ministros.

“A sucessão democrática no exercício dos cargos mais elevados da República, sem percalços e observadas as regras já conhecidas do jogo, seja no âmbito interno da Justiça Eleitoral, seja nas eleições gerais, é o signo indelével da atuação serena e constante dessa Justiça Eleitoral no âmbito da República”, disse o presidente do TSE.

Alexandre de Moraes nasceu em São Paulo. É ministro efetivo do TSE desde 2 de junho de 2020, após atuar como ministro substituto desde abril de 2017. Foi promotor de Justiça, advogado, professor de Direito Constitucional, consultor jurídico e ministro da Justiça. Tomou posse como ministro do STF em março de 2017

Por

Agência O Globo