BESSA GRILL
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O DEZESSEIS: Por Fabiana Agra

26/05/2016 06:16
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Por Fabiana Agra

Parte I
A triste partida, tal qual seu Lua

O ano de dezesseis começou com maus presságios para quem vive pra esses lados do nordeste: mais um ano em que o tal do menino comandaria os rumores do tempo; e na política, pairava o cheiro de um impedimento sem razão de ser, por querer desalojar do poder a única pessoa que parecia honesta na horda que comanda a nossa republiqueta. A véspera de São José chegou e nada de chuva nesse pedaço de sertão em que labuto e lamento; e tome olhar para o céu e nada de nuvem carregada; e tome olhar para a transposição do velho rio e lá havia muitas nuvens carregadas de incerteza – ao longe, um rádio tocando Teixeirinha explicava os motivos, as razões e os porquês do nosso medo…

Metade de abril passou e chegou o que já era esperado – consummatum est, habemus ictus. E a gente continuava a olhar para as nuvens e nada de chuva… Aí eu me lembrei da Rachel, que falara de uma tal seca ocorrida há cem anos, e os anos remeteram ao Márquez e eu pensei na minha Macondo particular. A quentura do lugar também fez lembrar das vidas do Graciliano e do meu xará Fabiano. Vi que era hora de partir, de cruzar o sertãozão e procurar guarita junto aos iguais, porque essa terra não tem mais jeito se não chover, é pra morrer todo mundo de fome e sede.

– Ainda estou cruzando o deserto, faz mais de um mês que passo por paisagens antes verdes, agora terras devastadas e de ninguém; vez por outra, eu e a minha burrinha falante recebemos a companhia de outros retirantes da democracia que, como eu, seguem caminho para a cidade grande em busca da fonte que nunca seca, porque dizem que é lá onde ela fica. Mas ontem mesmo, um desses que também migram, nos contou que soube que pra lá a coisa também não está muito boa, que agora há um tal de “seu” Mesóclise que sentou na cadeira de mandante e que está destruindo tudo em sua volta. Picuinha, a minha burrinha falante, relinchou na mesma hora e saiu-se com essa: “- deixa está, deixa está, que o bolso é raso e a frota é pequena”. Esse animal é sabido demais, e eu costumo ouvir seus conselhos, principalmente quando suas orelhas não estão murchas.

Amanhã eu não sei como conseguiremos prosseguir, pois os mantimentos já estão no fim e nós ainda não encontramos sequer uma fonte d’água. Mas é preciso ao menos ter fé, porque se for pra morrer, ao menos quero morrer lutando junto aos iguais, sozinha é que não quero cair. Mas eu fico aqui matutando: será que quando eu chegar, vou encontrar aquele povo todo? Ou vai ser só esses gatos-pingados que como eu, ainda estão na estrada? Porque se for assim, Picuínha, melhor seria a gente estacionar na primeira oportunidade e tentar ganhar alguns trocados, quem sabe não fosse melhor. A danada da burra olhou pra mim com cara de poucos amigos e eu me afastei antes que o coice cantasse no lombo. Porque esses bichos são teimosos e eu não vou contrariar a burrinha não. Vamos prosseguir, quem sabe daqui pra lá não chegue uma notícia boa?

Mas eu só quero mesmo ver é quando dezembro chegar, com aqueles trovões cantando no céu e os relâmpagos começarem a fazer a festa pros lados do meu sertão. Aí vai dar vontade de voltar, mas só então saberemos se ainda teremos terra para onde voltar ou se ela já foi ocupada pelos salteadores de agora. Um soldado amarelado acabou de passar por nós, prenúncio que vem chumbo grosso por aí. Esse dezesseis é mesmo de morte, ah ano maldito demorado de passar…
Andamos mais alguns quilômetros e encontramos um riacho; a água é pouca, mas dá pra matar a sede de agora. Mais na frente, um rancho meio abandonado e um aceno. É para lá que tanjo Picuínha. É pra lá que eu vou agora, só Deus sabe o que iremos encontrar, mas…

***

— com Diana Medeiros e Maria Betânia Borges.