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Marqueteiros usam pesquisas como propaganda, diz cientista político

“Pesquisas têm se transformado em atores políticos centrais”, alerta Paulo Fábio Datas Neto, cientista político e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba)

17/09/2012 17:23

 


Retrato de uma realidade que nem sempre se reflete nas urnas – a exemplo do que aconteceu em 2006, quando Ricardo Coutinho (PSB) contrariou os números e derrotou José Maranhão (PMDB) -, a pesquisa eleitoral tem se consolidado como um instrumento cada vez mais forte de propaganda política. Hoje os partidos políticos utilizam a pesquisa não apenas para nortear suas campanhas.

“Pesquisas têm se transformado em atores políticos centrais”,  alerta Paulo Fábio Datas Neto, cientista político e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Ele afirma que muitas vezes os números aferidos têm sido utilizados para propaganda, em vez de representarem  elementos que definam subsídios aos discursos.

Em Salvador, desde a última quinta-feira, quando pesquisa do Ibope identificou o avanço do candidato petista Nelson Pelegrino, que passou de 16% para 27% nas intenções de voto, os marqueteiros da coligação Todos Juntos por Salvador têm investido na veiculação do desempenho com clichês como a ‘hora da virada’.

Apesar de o democrata ACM Neto permanecer na dianteira com 40% das intenções de voto, o marketing político de PT tem explorado bem mais o resultado.  No horário político, os índices de crescimento do candidato são repetidos à exaustão.  No portal da coligação petista, o marketing se repete: “Pelegrino é o único que cresce nas pesquisas”.

Radares 

A utilização do recurso confirma  que  a pesquisa eleitoral é muito mais um instrumento de trabalho dos profissionais envolvidos na campanha eleitoral do que um subsídio para o eleitor. Elas servem para detectar as preferências das pessoas, seus níveis de engajamento, sentimentos e disposições no período de corrida eleitoral, analisam os  especialistas.

“Os resultados das pesquisas servem como radares para as coordenações dos partidos”, explica Wilson Gomes, doutor em filosofia, professor da Ufba e pesquisador.

Resultado nas urnas contrariou pesquisas em 2006

Em 2006, contrariando as pesquisas eleitorais, Jaques Wagner (PT) foi eleito governador da Bahia no primeiro turno, derrotando o então adversário Paulo Souto (PFL). Na ocasião, o petista se elegeu com 52,89% dos votos válidos e superou o então governador Paulo Souto (PFL), que ficou em segundo lugar, com 43,03%.

O curioso é que Wagner apareceu atrás de Souto em todas as pesquisas de intenção de voto ao longo da campanha. Para o coordenador da área de pesquisas de opinião pública e políticas do Ibope, Hélio Gastaldi, o resultado das urnas não foi surpresa. “Wagner apresentava um bom crescimento ao longo das pesquisas e confirmou isso nas eleições”,  avalia.

Gastaldi afirma que as pesquisas eleitorais refletem apenas o momento em que foram realizadas. “Para definir uma tendência do eleitorado, é preciso realizar uma série e compará-la”, alerta. José Carlos Martins Leite, sócio-diretor da Potencial Pesquisas, concorda: “O fenômeno político é muito instável”.

Toda pesquisa  divulgada segue a legislação estabelecida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), conforme a Resolução 23.364/11. Empresas que fazem os levantamentos têm de registrar na Justiça Eleitoral, com mínimo de cinco dias de antecedência, a data de divulgação, contratante, recursos despendidos, metodologia e período de realização. Pesquisas sem registro prévio podem resultar em multas de até R$ 106.410.

 Uol