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MARINA SILVA: A NOVA AVENTURA DA DIREITA – Parte II por Fabiana Agra

25/08/2014 18:04

Fabiana-AgraMARINA SILVA: A NOVA AVENTURA

DA DIREITA – Parte II

por Fabiana Agra

 

 

 

O programa de governo da campanha presidencial do PSB deverá ser lançado na próxima sexta-feira (29). Mas todo mundo já sabe que, em um eventual governo marineiro, Neca dará as cartas do jogo. Neca é o apelido de Maria Alice Setúbal, coordenadora do programa de governo de Marina Silva; ela é acionista da holding Itausa, que controla o banco Itaú Unibanco, o banco de investimentos Itaú BBA, e as empresas Duratex (de painéis de madeira e também metais sanitários, da marca Deca), a Itautec (hardware e software) e a Elekeiroz (gás). Só para lembrar, o Itaú doou um milhão de reais para a campanha de Marina Silva em 2010. E Neca tem motivos de sobra para querer derrotar o PT nas próximas eleições: em agosto de 2013 — portanto, no governo Dilma Rousseff — a Receita Federal autuou o Itaú Unibanco em R$ 18,7 bilhões, relativos à fusão do Itaú com o Unibanco, em 2008.

O programa de governo de Marina Silva, que leva a assinatura de Neca Setúbal, merece uma leitura muito atenta, portanto. Um ano atrás, em entrevista ao Valor Econômico, Neca foi perguntada se participaria de um eventual governo de Marina. Ela disse: “Supondo que Marina ganhe, eu estarei junto, mas não sei como. Talvez eu preferisse não estar em um cargo formal, mas em algo que eu tivesse um pouco mais de flexibilidade.” Neca avisou nesses últimos dias, inclusive, que num eventual governo marineiro, será implantada no país uma das teses mais caras ao neoliberalismo linha-dura: a independência do Banco Central.

Com a proposta de autonomia do Banco Central, os bancos privados e mercado financeiro querem derrubar o “intervencionismo” estatal do atual governo, pois atualmente os bancos públicos (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal…) abocanham já 50 % do mercado financeiro, liderando o crédito e puxando para baixo a taxa de juros. Com a proposta de Marina, quem decidirá aumento de juros e decisões importantes da economia para o Brasil serão pessoas ligadas ao “mercado financeiro” (ou seja, os banqueiros). Sinceramente? Eu gostaria muito de ouvir o que Luiza Erundina, nova coordenadora-geral da campanha de Marina, tem a dizer sobre este ponto.

Seguindo o mesmo pensamento, o principal assessor de Marina para assuntos econômicos, Eduardo Gianetti da Fonseca, acaba de reforçar a tese marineira, reiterando, em recente encontro empresarial, que entre ele e Armínio Fraga – o tutor econômico de Aécio Neves – não havia nenhuma diferença substancial de conteúdo. Mas somente com o lançamento do programa de governo do PSB poderemos aquilatar melhor o possível cenário econômico que se descortinará caso Marina seja eleita presidenta.

Em relação ao comportamento político de Marina Silva, vários fatores, principalmente de natureza emocional, norteiam o seu atual estilo de ser. É claro que, neste ponto, trata-se de uma opinião pessoal, fundamentada tão somente na análise de alguns fatos; vamos a eles. O que primeiro observa-se em Marina, é o seu ressentimento em relação a Lula, Dilma e o PT, sentimento que aflorou devido o processo de escolha dos candidatos para a eleição de 2010. Na cabeça de Marina, ela seria sacramentada por Lula, já que José Dirceu, principal nome do PT à época, fora derrubado pelo “mensalão petista”. A escolha de Dilma foi um golpe para o ego de Marina: ela se sentiu rejeitada, e tem demonstrado esse ressentimento sempre que pode. Assim, talvez Marina queira provar para Dilma que com ela, Marina, o Brasil será maior.  E certamente, para alcançar esse objetivo, se associaria a qualquer partido ou ideologia; pelo jeito, já é o que está fazendo.

Partindo-se de tais premissas, o que veremos em um eventual governo marineiro será um padrão de retorno econômico incompatível com a sustentação dos direitos sociais – o “Custo Brasil” – os quais estão sendo contemplados pelos governos de Lula e Dilma. Em bom português: com Marina Silva, as classes C e D provavelmente retornarão à sua penúria anterior, enquanto os banqueiros, industriais e grandes empresários voltarão a ter lucros estrondosos.

Mas vamos imaginar que, ganhando as eleições, Marina volte a ser o que sempre foi; seu governo, então, se constituirá em retrocesso, por vários motivos, dentre os quais, tomando por base uma lista publicada pelo blogueiro Marcos Doniseti e outra publicada no blog “Tijolaço”, destaco os seguintes pontos para futuras análises:

a) Marina odeia o agronegócio em si, ela é contra aquilo que sustenta o comércio externo do país. Extrativista, admite no máximo a agricultura de subsistência. Esse aspecto de seu programa é que o mais agrada aos Estados Unidos, que têm no Brasil sério concorrente real – e principalmente potencial – no mercado de commodities agrícolas.

b) Esquerdista radical, não é contra o capitalismo, mas contra a “sociedade industrial”; essa posição contrária à construção de obras estruturantes (usinas hidrelétricas,

siderúrgicas, refinarias, rodovias, ferrovias etc), inviabilizaria o desenvolvimento econômico e social do Brasil.

c) Tirando o criacionismo, o horror aos transgênicos (não ao patenteamento de novas espécies obtidas em laboratório, mas à ciência que permite criá-los) e o uso abusivo dos conceitos em ciências humanas, nada propõe em áreas do conhecimento.
d) Não tem suporte político, além do aglomerado que se forma conjunturalmente para colocá-la no governo ou atrapalhar o “inimigo”. É contra “tudo que está aí”, e a favor da “gestão do Estado com a graça de Deus, espada da Justiça, a confiança da Fé, a pureza da Inocência e iluminação da Sabedoria”. Assim, Marina terá que recorrer a partidos reacionários (PSDB, DEM, PPS, etc) para poder governar, tornando-se uma governante totalmente submissa aos mesmos, já que as principais medidas (nomeação de diretores do Banco Central, aumento do salário mínimo, criação de programas sociais, orçamento da União, etc) precisam ser aprovadas pelo Congresso Nacional.

e) pelo que anda falando, Marina adotará uma política econômica recessiva, com o suposto objetivo de derrubar a inflação – que atualmente não ameaça o país.

f) seus principais assessores econômicos são neoliberais e tucanos de carteirinha, como por exemplo, André Lara Resende e Eduardo Gianetti da Fonseca. Já o economista tucano Luiz Carlos Mendonça de Barros declarou que “Marina Silva é um plano B tucano”.

g) Marina Silva não é fácil de relacionar-se nem tampouco de negociar, criando problemas sérios por todos os partidos dos quais fez parte, tendo dificuldades gigantescas para conviver com lideranças que divergem de suas ideias, projetos e orientações. Lembra muito o perfil de Collor – e todos lembram no que deu o autoritarismo do “caçador de marajás”…

i) A candidata é contra a realização de pesquisa com células-tronco embrionárias. E, a julgar pelo fato de que Marina tem um grande apoio entre lideranças e políticos evangélicos, dificilmente ela deixará que tais pesquisas venham a ser realizadas no país, o que representará um grande retrocesso em relação à situação atual, quando elas podem ser realizadas.

h) Marina Silva declarou, na campanha presidencial de 2010, que é contra o “casamento gay”, afirmando ser apenas a favor da “união civil de bens” entre homossexuais. Essa é uma típica posição neoliberal. “Unir os bens” pode, mas pelo jeito, os demais direitos serão negados aos homossexuais. Vale lembrar que a relação da candidata não é nada amistosa com o movimento LGBT, visto que em maio de 2013 ela saiu em defesa do deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), que à época defendia a “cura gay” e presidia a Comissão de Direitos Humanos (CDH). Ela declarou que o parlamentar era “perseguido por ser evangélico”. Será que Marina é a favor da “cura gay”? Até o candidato tucano é mais progressista e já declarou que o casamento igualitário é um tema inserido na sociedade e que é a favor, enquanto o governo Rousseff implantou uma série de políticas públicas a partir da Coordenação Nacional LGBT.

i) E ainda tem mais uma questão – esta primordial e relacionada ao estado laico: afinal, Marina vai legislar baseada nos valores da Bíblia ou segundo a Constituição Federal? Até este momento, as candidaturas do PT e do PSDB vinham flertando com os alguns setores evangélicos que agora, na falta de um, terão dois candidatos que possam representá-los. Posto assim, parte dos votos religiosos têm tudo para se dividir entre Marina Silva e Pastor Everaldo. Eis a grande chance de Dilma Rousseff e Aécio Neves se pautarem na questão do Estado Laico e darem um passo à frente neste tema, principal empecilho ideológico na figura de Marina Silva.

Como se vê, nem de longe Marina Silva representa uma terceira via ou a “voz dos insatisfeitos”; muito pelo contrário, a candidata do PSB transita fortemente no espectro político da direita religiosa. Porém, a imprensa tradicional faz questão de alimentar o voto despolitizado e retratar a candidata como um “gás novo” na disputa presidencial, sem se dar conta de que, numa eventual vitória de Silva, em seu discurso de posse, ao lado da Constituição teremos outro livro deitado. Resta saber com qual cartilha um eventual governo Marina Silva será pautado: a Bíblia ou a Constituição. Esta foi a aventura em que a Direita brasileira embarcou, no intuito de levar a disputa eleitoral para o segundo turno e, ao que tudo indica, vai conseguir. Porém, falta combinar com os eleitores, num eventual segundo turno, quem fará companhia a Dilma: Aécio ou Marina.

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