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“FANATISMO” Rui Leitao

25/05/2016 16:01

11222909_1477259012584996_2476001804344329197_n“FANATISMO”

Rui Leitao

Fagner musicou, em 1981, o poema “Fanatismo” de autoria da poetisa portuguesa Florbela Espanca, escrito em 1923. O conteúdo do soneto fala de uma paixão tão grande que se torna uma espécie de fanatismo. O cantor cearense coloca no final da letra da música trechos da canção “Meu querido, meu velho, meu amigo” de Roberto Carlos.

“Minh’alma de sonhar-te, anda perdida/meus olhos andam cegos de te ver/não és sequer a razão do meu viver/pois que tu és já toda minha vida”. O “eu lírico”, expressa todo um amor que a faz viver num mundo de sonhos. Esse permanente estado de devaneio a deixa como se estivesse meio perdida no mundo, sem domínio do seu próprio ser. È algo tão extasiante que se vê privada até do sentido da visão, nada mais lhe interessa, a não ser o encantamento da sua imagem. Normalmente quando nos apaixonamos passamos a ter esse enlevo como determinante no sentido do nosso viver. No caso da poetisa ela diz que isso é impossível porque considera a pessoa amada sua própria vida, os dois como um único ser.

“Não vejo nada assim, enlouquecida…/passo no mundo, meu amor, a ler/no misterioso livro do teu ser/a mesma história tantas vezes lida”. A intensa paixão perturba a sua capacidade de pensar, fica como que “enlouquecida”. Fica, por isso mesmo, de maneira quase irracional, buscando compreender a alma do seu bem amado, descobrir “mistérios” da sua vida. Nada que lhe diga respeito cansa sua mente. Suas histórias, suas palavras, suas atitudes, por mais que sejam repetitivas não impõem fadiga.

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…/quando me dizem isso, toda a graça/duma boca divina fala em mim!”. Com o passar do tempo se percebe a fragilidade das coisas. Nada é eterno, permanente. Tudo está preso ao tempo. Mas quando ela é chamada a pensar sobre isso, é como se estivesse sendo advertida por um anjo, uma mensagem divina.

“E, olhos postos em ti, digo de rastros:/Ah! Podem voar mundos, morrer astros/que tu éscomo um deus: Princípio e fim”. A dedicação integral e exclusiva leva à exclamação de que nenhum evento, por mais catastrófico que seja no universo, alterará a forma como vê a pessoa amada, alguém acima do natural, quase uma divindade, seu “princípio e fim”.

• Integra a série de crônicas do segundo volume do livro CANÇÕES QUE FALAM POR NÓS, em elaboração.

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