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Ex-secretária reage a vereadora que criticou feministas

Eliza Virgínia chama feministas de "mal amadas" e gera reação da ex-secretária de Políticas Públicas para as Mulheres: "Ela representa um retrocesso para a luta pelos direitos humanos"

7/12/2012 15:18
A vereadora Eliza Virgínia declarou ontem que as secretarias de políticas públicas para as mulheres estariam incentivando as esposas a se separarem de seus maridos porque em seus quadros haveriam “feministas mal amadas e que não gostam de homens”. A frase foi dita durante uma sessão em que era discutida a aplicação da Lei Maria da Penha. Hoje, em uma emissora de rádio, a parlamentar informou que não quis generalizar, mas se reportou a um caso específico em que uma funcionária exonerada da Secretaria de Políticas Públicas para as Mulheres disse ter sido dispensada por ter aconselhado uma vítima de violência a tentar fazer as pazes com o marido.
A postura da vereadora Eliza Virgínia motivou um protesto público da ex-secretária de Políticas Públicas para as Mulheres, Nézia Gomes. Em um texto distribuído à imprensa, Nézia afirma que o pensamento da tucana representa um retrocesso na luta das mulheres para uma sociedade menos machista e preconceituosa. Confira a íntegra do texto:
“É lamentável saber que uma vereadora, representante do povo, tem posturas conservadoras, ignorantes e tem a capacidade de jogar no lixo toda uma história de luta, suor e sangue para a garantia dos direitos humanos. E o pior, é saber que esta senhora chamada Eliza Virgínio foi reeleita e passará mais quatro anos ganhando dinheiro público para legislar para os fundamentalistas. Que retrocesso essa mulher representa para nossa história!
 
Gostaria de dizer a esta senhora que, como ex Secretária de Políticas Públicas para as Mulheres e militante feminista, a cidade e o Estado nunca avançou tanto na garantia da cidadania das mulheres. A senhora que fala tanto de vida, deveria entender que quando a gente corre para implementar políticas de enfrentamento a violência contra a mulher, a gente está lutando e garantindo a vida também. Quando concretizamos serviços para acolher as mulheres, seja centros de referencia, casa abrigo, delegacias da Mulher, estamos cuidando para que outras mulheres não entrem nas estatísticas de assassinadas, vítimas de uma cultura machista que mata porque não aceita rompimentos.
 
Nós, não induzimos mulheres nenhuma a nada. Até porque, quando uma mulher está com sua autoestima baixa, ela não consegue dar passo nenhum. Nós respeitamos o processo de cada mulher. Nossa intenção é de fortalecê-la para que a mesma saia do ciclo de violência, estando ou não nas suas relações afetivas. A única coisa que não abrimos mão e vamos até o fim, é o direito das mulheres construírem suas histórias de vida sem violência. E para garantir isso, a gente briga mesmo.
 
Vereadora, nós não somos frustradas, ao contrário. Olhar para o mundo hoje e ver mais mulheres entrando nas universidades, em todo mercado de trabalho, podendo decidir o tamanho que será sua família e ter um instrumento como a Lei Maria da Penha nos dá um orgulho grande e a certeza que estamos no caminho certo. Até para a Senhora chegar a Câmara Municipal de João Pessoa foi preciso queimar sutiãs, ir para ruas, suar e derramar sangue.
 
A senhora que representa o povo, deve respeitar as suas histórias e conquistas. Nada foi nos dado de graça. Os mecanismos de políticas para as mulheres é uma conquista de todo povo brasileiro, porque quando a gente muda à vida das mulheres, muda também, a vida de todas as pessoas ao seu redor. Respeito é bom e nós gostamos e lutamos por ele!
 
Nézia Gomes
Feminista e ex Secretária de Políticas Públicas para as Mulheres