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AFINAL, QUEM ERA O ENTREVISTADO: DILMA OU BONNER? por Fabiana Agra

20/08/2014 00:20

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por Fabiana Agra

 

 Assisti, sem querer acreditar, à negação ao bom jornalismo protagonizada por William Bonner e Patrícia Poeta durante a entrevista com a presidenta Dilma Rousseff no Jornal Nacional da noite de 18 de agosto. Entrevista não; aquilo estava mais para ringue de luta livre, já que a todo instante, os apresentadores tentavam emparedar a entrevistada, sem oportunizar sequer a conclusão de seu raciocínio – e isso aconteceu em todas as perguntas feitas. Mais ainda: ao fazer perguntas quilométricas, ficou a sensação de que Bonner falou bem mais do que a presidenta, até porque ninguém ficou interrompendo-o a todo instante. Se não fosse quem fosse, Dilma teria ficado sido acuada e jogada contra a parede, em claro nocaute técnico. Mas não aconteceu dessa forma, pois a presidenta não se intimidou e foi ela quem fez o apresentador gaguejar – resmungar, em alguns momentos – conseguindo dizer o que pretendia,  assumindo o controle de todas as respostas e sem comprometer tanto o seu desempenho.

A primeira pergunta – que durou mais de um minuto para ser formulada – versou sobre “corrupção e mal feitos”, onde Bonner apontou problemas com a honestidade da equipe do governo, além de citar a Petrobrás. Dilma percebeu a artimanha desde o início e manteve a calma sem, no entanto, dar as respostas que Bonner e Patrícia esperavam. Com argumentos de sobra, respondeu dizendo que o governo do PT foi o que “mais estruturou o combate à corrupção e aos mal feitos”. E continuou: “Nenhum procurador geral da República foi chamado no meu governo de engavetador geral da República”, numa referência a Geraldo Brindeiro, do governo FHC.

O âncora do Jornal Nacional insistiu no tema da corrupção, afirmando que “Um grupo de elite do seu partido foi condenado por corrupção, são corruptos, posso dizer por que a Justiça já julgou, mas o seu partido protegeu essas pessoas. O que a senhora acha dessa postura do seu partido?” Dilma não respondeu diretamente – nem poderia –, optando por lembrar sua posição institucional: “Enquanto eu for presidente da República, não externarei opinião pessoal sobre decisões do Supremo Tribunal Federal. Eu tenho a minha opinião, mas não vou externá-la”. Tanto Bonner quanto Poeta insistiram terminantemente que a presidenta emitisse a sua opinião. Mais uma vez, Dilma tomou o controle da resposta, lembrando a sua posição de chefe de um dos poderes.

A entrevista continuou, Bonner parecendo o mais irritado; mas Patrícia também não deixou por menos, chegando a apontar, em riste, o dedo para a face da presidenta, insistindo que o governo dela e do ex-presidente Lula não fizeram “nada” na área da saúde. A presidenta conseguiu dizer, entre interrupções da entrevistadora, que hoje, ao contrário do passado, o atendimento de saúde pública atinge 50 milhões de brasileiros. Patrícia não gostou do que ouviu, e Bonner atacou de novo, indagando sobre a crise internacional, o baixo crescimento da economia e a inflação baixa, tudo isso em uma pergunta quilométrica –, no que Dilma retrucou, asseverando a queda da inflação desde o mês de abril, que não houve aumento de preços em julho, e que todos os dados antecedentes ao segundo semestre mostram crescimento em relação ao primeiro semestre. Disse ainda, no seu melhor momento da entrevista: “Nós enfrentamos a crise, pela primeira vez no Brasil, não desempregando, não arrochando salários, não aumentando tributos – pelo contrário, diminuimos, reduzimos e desoneramos a folha, reduzimos a incidência de tributos sobre a cesta básica. Nós enfrentamos a crise também sem demitir”, respondeu a presidenta.

Aborrecido, Bonner concedeu um minuto para as considerações finais: “- Obrigado, Bonner, eu quero dizer que acredito no Brasil”, reiterou Dilma, que ainda foi interrompida duas vezes, já que o tempo havia “estourado”. “- Eu compreendo, vou suspender a minha fala”, encerrou Dilma, com classe, diante de Bonner e Poeta, visivelmente transtornados, irritados e com caras de “dever não cumprido”. Foi uma entrevista meio tacanha e Dilma saiu-se bem melhor em seu papel do que os entrevistados. Isso é uma boa notícia, para quem terá o maior espaço na propaganda eleitoral gratuita, oportunidade em que tentará a recuperação da imagem do seu governo.

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