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Tragédia; Sócio mandava tirar extintores das paredes da boate, diz ex-funcionária

Sócio mandava tirar extintores das paredes da boate, diz ex-funcionária

30/01/2013 16:58

Vanessa Vasconcelos com o pai após incêndio em Santa Maria (Foto: Tahiane Stochero/G1)Vanessa Vasconcelos com o pai após incêndio em Santa Maria (Foto: Tahiane Stochero/G1)

Funcionária da boate Kiss até dezembro de 2012, Vanessa Vasconcelos disse em depoimento à polícia nesta quarta-feira (30), que Elissandro Spohr, conhecido como Kiko, um dos sócios da casa noturna, mandava retirar os extintores de incêndio das paredes por questão estética. Questionado pelo G1, o advogado de Kiko, Jader Marques, negou a informação.

O incêndio em Santa Maria, região central do Rio Grande do Sul, deixou 235 mortos no último domingo (27). A jovem trabalhou por 2 anos no estabelecimento e perdeu a irmã, que trabalhava como recepcionista, na tragédia.

“Ele achava feio os extintores. Mandava tirar. Só colocava de volta quando ia ter inspeção ou quando ficava com receio que iriam inspecionar”, afirmou ao G1Vanessa, ao lado do pai, depois de deixar a delegacia. Ela conta que, após uma sessão de fotos da boate, ouviu do patrão: “Como estes extintores ficam feios na parede”.

“Não é verdade, não me parece razoável essa informação. Estou estabelecendo o que me parece razoável pelo que falei com ele. O local de maior exposição era o palco e ali tinha extintor”, disse Jader Marques após a entrevista coletiva que concedeu sobre o caso na manhã desta quarta.

Kiko está internado em um hospital de Cruz Alta (cerca de 130 km ao norte de Santa Maria). Além de danos no pulmão, a equipe médica informou que o empresário sofre de depressão.

Vanessa trabalhou na Kiss entre dezembro de 2010 e dezembro de 2012 e deixou a casa noturna poucos dias antes da tragédia. Era uma das gerentes. Ela foi até a delegacia também para tentar reconhecer a bolsa da irmã, que morreu na tragédia.

Vanessa conta que Kiko fazia seguidamente reformas internas no local, como mudanças da posição do caixa, nivelamento no teto e troca do palco de lugar.

“Era sempre na esquerda, depois ele passou para a direita, no outro lado. Depois nivelou a boate. A casa tinha uma rampa para um lado. Ele mandou colocar madeira e deixar tudo igual. Ele fazia tudo que é tipo de mudanças lá dentro”, diz a ex-gerente.

Outra mudança foi na troca de ventiladores. Havia grandes ventiladores abertos no teto, que faziam muito barulho, segundo uma moradora do prédio ao lado que pediu para não ser identificada. Recentemente, após o abaixo-assinado de 87 vizinhos, parte dos aparelhos teria sido retirada. Depois, o proprietário colocou mais ventiladores de teto internos, porque queria economizar com ar-condicionado, segundo a ex-funcionária.

Um primo de Kiko era responsável pelas obras, de acordo com Vanessa. “Ele não contratava engenheiro. O primo do Kiko fazia as reformas, de chinelo de dedo e bermuda, sem nenhum equipamento de segurança.”

A jovem deixou a boate em dezembro e disse estar processando Kiko por direitos trabalhistas, pois na Carteira de Trabalho seus horários de trabalho e salário não eram compatíveis com a realidade.

“Quando houve o incêndio, fui lá. Queria a minha irmã. Ela morreu lá dentro tentando ajudar as pessoas a saírem. Conhecíamos aquele lugar no escuro e ela viu as pessoas correndo para o banheiro e tentou avisá-los de que a saída era para o outro lado. Acabou morrendo.”

Investigação da tragédia
O delegado regional de Santa Maria (RS), Marcelo Arigony, afirmou em entrevista coletiva na tarde desta terça (29) que a banda Gurizada Fandangueira utilizou um sinalizador mais barato, próprio para ambientes abertos e que não deveria ser usado em local fechado.

O delegado elencou uma série de elementos que contribuíram para que a tragédia, como falhas na iluminação de emergência, espuma inadequada para recobrir a danceteria e extintores irregulares.

Segundo Arigony, o extintor falhou quando os seguranças tentaram apagar o fogo. “Segundo testemunhas e provas preliminares, os extintores podem ser falsos, pois não estavam funcionando”, disse.

Incêndio e prisões
O incêndio começou por volta das 2h30 de domingo (27). Segundo relatos de testemunhas, faíscas de um artefato pirotécnico atingiram a espuma do isolamento acústico, no teto da boate, e fogo se espalhou pelo estabelecimento em poucos minutos.

Quatro foram presos na segunda-feira: o dono da boate, Elissandro Calegaro Spohr, o sócio, Mauro Hofffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira.

Em depoimento, Spohr afirmou à Polícia Civil que sabia que o alvará de funcionamento estava vencido, mas que já havia pedido a renovação.

O advogado Mario Cipriani, que representa Mauro Hoffmann, afirmou que o cliente “não participava da administração da Kiss”.

Também na tarde desta terça, outras informações importantes sobre o caso foram divulgadas:

1- Segundo a polícia, a banda Gurizada Fandangueira utilizou um sinalizador mais barato, impróprio para ambientes fechados;
2- há diversos indicativos de que a boate não deveria estar funcionando;
3- a Prefeitura de Santa Maria se eximiu de responsabilidade pelo incêndio;
4- o chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional do Corpo de Bombeiros, major Gerson Pereira, recebeu uma ligação do governo do Estado e disse que foi “orientado a não falar com a imprensa”.
5-  empresa entrega o gravador e diz que não foram feitas imagens do incêndio.

Infográfico: tragédia de Santa Maria - 29/01 (Foto: Editoria de Arte/G1)

G1