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Prisão muda relação de mulheres com a maternidade. Saudade dos filhos abala estado emocional das internas

10/05/2014 09:25

Marcela Alves Lima tem 27 anos e está grávida do seu quinto filho. Ela já completou os nove meses de gestação e espera entrar em trabalho de parto a qualquer momento. Nesta hora, muitas mulheres vivem um momento semelhante ao de Marcela, mas com uma diferença. Na hora do parto, ela não estará acompanhada apenas dos parentes mais próximos e de uma equipe médica, mas será vigiada de perto por uma escolta policial. Marcela cumpre pena de seis anos de prisão por tráfico de drogas na Penitenciária de Recuperação Feminina Maria Júlia Maranhão, em João Pessoa.

 

Esta não é a primeira vez que Marcela está presa, mas é a primeira vez que ela enfrenta o cárcere grávida. Isso mudou decisivamente a maneira como ela está enxergando sua passagem pela prisão, bem como a expectativa em relação à sua vida daqui para frente. “Estou presa desde outubro e é muito difícil estar grávida aqui dentro. Penso muito no momento em que ela (a criança) precisar ir embora, mas sei que é o melhor, pois ela não pode pagar pelos meus erros. Quando eu sair daqui, quero me dedicar aos meus filhos, me arrependo muito e sei que não valeu a pena”, confessa.
Marcela, assim como muitas de suas companheiras presas, nunca recebeu uma visita do seu parceiro, opai da criança, o que aumenta ainda mais a sensação de isolamento em um momento em que a mulher exige mais cuidados tanto do ponto de vista físico quanto emocional. “O pai é ex-presidiário, agora está na rua, mas nunca veio me visitar. Quando ele estava preso eu ia lá toda semana, durante três anos”. Marcela entrou com um pedido de prisão domiciliar para cuidar dos filhos e também da sua mãe que está doente. “É ela quem cuida dos meus filhos. Todo domingo ela vem me visitar, arrastando uma perna, mas vem. A minha mãe não tem condições de cuidar de mais essa criança”, preocupa-se.
Entretanto Marcela não é a única a se preocupar com a dinâmica da família durante a sua ausência e que já sofre por uma separação iminente. Atualmente, a unidade prisional abriga três grávidas e sete bebês. Aos seis meses a criança tem que ir embora e antes é feito um processo de adaptação da criança com os parentes que cuidarão dela. “O ambiente aqui não é propicio para as crianças e as mães tem esse entendimento, as crianças não têm uma pena a cumprir”, explica a diretora do presídio feminino, Cinthya Almeida. Ela conta que durante a gestação, as mulheres recebem um tratamento diferenciado, por exemplo, tendo o direito ao banho de sol diário em outro horário e são alojadas em um local considerado mais tranquilo. Além disso, recebem as vacinas necessárias, fazem todo o pré-natal com a equipe de saúde da unidade e quando é necessário realizar exames em outro local, elas saem com escolta. Quando a criança nasce, recebe fraldas e leite.
Saudade
Saudade pode ser considerada uma das palavras mais presentes no discurso das mães detentas. Para muitas, a maior motivação para sair é cuidar dos filhos, de quem sentem muita falta. “Quando estão sem a visita da família, elas ficam tristes, pedem a intermediação da assistente social, pedem que entre em contato com a família e diga que estão com saudades”, conta a psicóloga Eronice de Oliveira. Ela revela que o afastamento da família é uma das maiores causas de busca por acompanhamento psicológico nas unidades prisionais.
Nem sempre, o afastamento é voluntário, algumas famílias residem no interior do Estado ou em locais onde o transporte público é precário. Mas independente do motivo, é extremamente danoso para mães e filhos. “De certa forma o vinculo é quebrado e vai ser muito complicado quando a mãe voltar. Se há visitas constantes fica mais fácil. Caso não haja essa visita, mãe e filho se tornam estranhos, esse vinculo que deveria estar sendo estabelecido com a mãe, a criança vai ter com seu cuidador”, explica.
Uma das presas que reclama da saudade, é Elisângela Canuto, presa por tráfico e mãe de três filhos adolescentes. Ela revela que esconde do filho mais velho que está presa, isso se torna possível porque ele mora em Fortaleza, mas recebe visitas dos outros dois. Ela chora e conta que sempre que seus filhos fazem aniversário, eles repetem que seu maior presente, seria tê-la em casa novamente.
Elisângela é a filha mais velha de pais alcoólatras e por isso é um dos pilares de sustentação da família e sempre foi muito rígida com as pessoas, até ela mesma acabar cometendo um erro. “Servi de exemplo, preferi errar para não ver ninguém mais cair no erro. Errar é humano” . Pode até parecer paradoxal, mas para ela, passar pela prisão, a tornou uma pessoa melhor “Estar aqui contribui para que eu possa mostrar aos meus filhos o caminho correto, sempre que eles vêm me visitar eu digo: tá vendo isso aqui, isso não é lugar para ninguém”. Elisângela se emociona ao falar dos filhos e diz que sua maior dor é saber que é a única culpada por essa separação
Outra detenta preste a viver a experiência da saudade na sua forma mais intensa é a Severina Ramos dos Santos, natural de Sapé. Mesmo condenada a 11 anos de prisão, ela sonha em poder ir para casa junto com sua bebê Maria Beatriz. Severina passou por uma gestação de alto risco e sua filha nasceu prematura aos seis meses. O nascimento deu a Severina a oportunidade de passar mais três meses na companhia da filha.
Ela diz se arrepender muito do crime que cometeu, mas destaca que se não estivesse presa, sendo moradora cidade do Cajá, dificilmente ela e a filha teriam sobrevivido a gestação difícil. “De todos os erros que eu já cometi, esse é pior, nunca me arrependi tanto de uma coisa. Mas se eu tivesse na rua eu não teria a assistência que tive aqui. Por mais que seja vergonhoso chegar a o medico algemada, foi o melhor para ela e isso me conforta”. Elisângela diz que vai recorrer da sua sentença, ela espera que daqui há alguns meses, quando Maria Beatriz precisar ir embora, ela consiga ir junto e dessa vez, para não voltar nunca mais.

Redação com :
WSCOM