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PLANTÃO: Vigia confirma durante julgamento ter visto Gil Rugai na noite do crime

19/02/2013 00:10

 

‘Não resta dúvida’, diz perito sobre pegada de Gil Rugai em porta

Adriano Yonamine diz que chute que arrombou área da casa foi dado por Gil.
Ex-seminarista responde pela morte do pai e da madrasta ocorrida em 2004.

Júri de Gil Rugai ocorre desde 13h15 no Fórum da Barra Funda, em São Paulo (Foto: Adriano Lima/Brazil Photo Press/Estadão Conteúdo)Júri de Gil Rugai ocorre desde 13h15 no Fórum da Barra Funda, em São Paulo (Foto: Adriano Lima/Brazil Photo Press/Estadão Conteúdo)

A primeira testemunha ouvida no julgamento estudante e ex-seminarista Gil Rugai é o homem que trabalhava como vigia na rua onde o crime ocorreu. No começo da tarde desta segunda-feira (18), diante do júri, ele confirmou ter visto o réu saindo da casa junto com outra pessoa na noite de 28 de março de 2004.

Por causa de ameaças, ele disse que se arrepende de ter contado o que viu ainda durante as investigações.
Considerado testemunha protegida, ele não teve o nome divulgado pelo Tribunal de Justiça. Em seu depoimento, o vigilante disse ao juiz Adilson Paukoski Simoni que viu Gil Rugai sair da casa onde foram mortos o pai e a madrasta por volta das 21h no dia do crime, acompanhando de uma pessoa.

O promotor Rogério Leão Zagallo, então, perguntou se ele foi pressionado pelo delegado que acompanhou o caso a dar esta declaração. O vigia negou.

A testemunha contou que foi incluída no Programa Estadual de Proteção a Testemunhas (Provita), juntamente com sua mulher, após receber ameaças, há seis anos. Segundo ele, um carro tentou atropelar sua esposa e filhos.

Zagallo perguntou ao vigia se ele se arrependeu de ter dito à polícia que viu Rugai saindo da casa onde ocorreram as mortes. “Me arrependo porque prejudicou minha família”.

O advogado Thiago Anastácio, que defende o acusado, tentou desqualificar a versão do vigia ao questioná-lo sobre diversos pontos. A defesa começou a fazer testes de percepção com a testemunha, perguntando se todo mundo na rua poderia ouvir os tiros. “O fato é que o senhor estava a 80 metros e ouviu os tiros e o outro vigia estava a 20 metros e não relatou isso.”

O vigia respondeu que não estava na guarita no momento dos tiros. A defesa argumentou que toda a perícia foi feita com base na guarita, e que agora a testemunha mudou a versão. Os advogados de Gil Rugai perguntaram sobre os disparos. O vigia contou que pensou, inicialmente, que se tratava de bombinhas e só descobriu que eram disparos quando a polícia chegou. O defensor rebateu, questionando por que o vigia se escondeu atrás de uma árvore por causa de bombinhas.

O vigia também entrou em contradição quanto ao sexo das pessoas que saíram após os disparos. Inicialmente, o homem contou que viu dois homens; depois, que não sabia qual o gênero da dupla. “Há dez segundos perguntei se era um homem e uma mulher, e o senhor disse que não sabia. O que o fez mudar de ideia?”, perguntou o advogado. “Saíram duas pessoas lá de dentro”, foi a resposta da testemunha. O advogado mais uma vez rebateu perguntando como o vigia conseguiu identificar o suspensório sob o casaco e não distinguiu se eram dois homens ou um homem e uma mulher.

O depoimento acabou às 15h55 e o júri entrou em intervalo para almoço. Os trabalhos devem ser retomados com o depoimento do delegado Rodolfo Chiareli.

O julgamento
O julgamento começou com atraso de mais de 3 horas, por volta das 13h15 no Fórum da Barra Funda, na Zona Oeste de São Paulo. Um problema na instalação de um dos computadores atrasou o início dos trabalhos. O réu, que nega ter matado o pai e a madrasta, em 2004, disse ao chegar para o júri que tenta manter a calma.

Cronologia do caso Gil Rugai (Foto: Arte/G1)

Caberá a sete jurados – cinco homens e duas mulheres, escolhidos por sorteio – decidirem, a partir das provas da acusação e da defesa, se Gil Rugai matou ou não pai, Luiz Carlos Rugai, e a madrasta Alessandra de Fátima Troitino.

Além do homicídio, o réu também é acusado de estelionato. O processo tem 19 volumes, com 200 folhas cada um. Recentemente, a defesa acrescentou 1,8 mil folhas com provas que atestariam que o estudante não cometeu o crime.

O réu, que atualmente tem 29 anos de idade, responde ao processo em liberdade, mas já chegou a ficar preso por dois anos. Na tentativa de despistar a imprensa, a defesa do réu colocou o irmão de Gil Rugai, que se parece muito com o acusado, para passar próximo aos repórteres e organizou a entrada do réu por uma porta lateral, acompanhado da mãe. Gil Rugai veste terno e gravata.

A defesa de Gil Rugai disse que irá derrubar as argumentações da Promotoria e que vai apresentar dois nomes, que já constam no inquérito, que deveriam ser investigados como suspeitos. Thiago Anastácio, um dos advogados do estudante, afirmou que os nomes serão divulgados apenas no plenário. O outro advogado de defesa, Marcelo Feller, afirmou que nos últimos anos o ex-seminarista ficou estigmatizado como uma pessoa “esquisita”, um monstro, e que no julgamento será provado que isso não é verdade.

O promotor Rogério Leão Zagallo afirmou, nesta manhã, antes do início do julgamento, que tem provas de que o ex-seminarista cometeu o crime. Ele espera que os jurados condenem o réu e que a Justiça aplique uma pena dura. “No meu entendimento, o crime de homicídio doloso tem que ser respondido à altura. Algo em torno de uma condenação de 30 de reclusão”, disse. Segundo a promotoria, caso seja condenado, Gil Rugai deverá sair preso do fórum. A defesa, no entanto, já adiantou que em uma eventual condenação irá pedir para o réu que, já responde ao processo em liberdade, continuar solto.

Desvio
Ubirajara Mangini, advogado da família de Alessadra e assistente da acusação, contou que os seus clientes não devem comparecer ao júri. “Para mim, o crime não foi movido por vingança. Ele matou a Alessandra e Luiz porque foi descoberto pelo pai que ele desviou dinheiro da empresa, falsificou assinatura do pai e tinha medo de ser preso por conta disso”, afirmou.
Para o advogado, o desvio está comprovado nos autos. “Há prova de que houve desvio e de que o pai proibiu que ele fizesse qualquer movimentação dentro banco”, disse Ubirajara. Segundo ele, Alessandra assumiu a função de Gil como diretora financeira. Mangini destacou ainda que Luiz iria tomar medidas judiciais contra o filho. “A vingança não está colocada no processo, mas veio um sentimento de revolta e o medo de ser preso”, declarou.

Já o perito Ricardo Molina, que auxilia a defesa do Gil Rugai, afirmou que “o caso está todo errado do começo ao fim”. “Inferências são transformadas em evidências. A perícia é ridícula”, declarou. Ainda segundo Molina, a linha de investigação que poderia ser tomada, onde havia provas concretas que apontavam em outra direção, não foram adotadas para que a acusação continuasse pairando sobre Gil.

Casa onde ocorreu crime em Perdizes, na Zona Oeste (Foto: Arquivo/Kleber Tomaz/G1)Casa onde ocorreu crime em Perdizes,
na Zona Oeste (Foto: Arquivo/Kleber Tomaz/G1)

Crime
O casal foi morto com 11 tiros na residência em que morava na Rua Atibaia, em Perdizes, na Zona Oeste da cidade. No mesmo processo pelo homicídio, Gil Rugai responde ainda a acusação de ter dado um desfalque de mais de R$ 100 mil, em valores da época, à empresa do pai. Razão pela qual havia sido expulso do imóvel cinco dias antes do crime. Ele cuidava da contabilidade da ‘Referência Filmes’.

Contra o réu, a Promotoria diz ter como provas: a arma do crime, achada no prédio onde Gil Rugai mantinha um escritório e uma pegada na porta da casa das vítimas que foi arrombada pelo assassino. Quem acusa é o promotor do caso, Rogério Leão Zagallo.

O julgamento de Gil Rugai já foi adiado por duas vezes, em 2011 e 2012, por causa de pedidos da defesa, que solicitou à Justiça a realização de um novo exame de DNA do sangue recolhido na cena do crime e do acusado. Além disso, pediu esclarecimentos de um perito.

O risco de um novo adiamento era possível. Para isso, as partes envolvidas no processo teriam de alegar algum problema para a realização do júri. Por exemplo, a ausência de alguma das testemunhas.

O que alegam defesa e acusação no caso Gil Rugai
Defesa Acusação
Horário do crime Disparos foram entre 21h54 e 22h13, quando ele estava no escritório dele, longe da cena do crime. Ligações telefônicas comprovam álibi Tiros ocorreram entre 21h15 e 21h30, quando Gil Rugai não comprovou onde estava e não apresentou álibi
Motivo do crime Relacionamento de Gil Rugai com pai e madrasta era bom e não houve desfalques financeiros na empresa Desviou mais de R$ 100 mil da produtora do pai, que o expulsou de casa
Pegada na porta Borrão não é do estudante, que não teria força suficiente para arrombá-la Polícia Técnico-Científica concluiu que borrão na porta arrombada da residência das vítimas era do estudante. Praticante de artes marciais, teria força para derrubar a porta, segundo um de seus professores de jiu-jitsu. Radiografia no pé do réu mostrou que ele teve fissura na região compatível com golpe aplicado na porta
Arma do crime Polícia Civil ‘plantou’ a pistola, ameaçou testemunhas e ‘mexeu’ na cena do assassinato para incriminar Gil Rugai Pistola PT 380 foi encontrada na caixa de retenção de água pluvial do prédio onde o acusado mantinha escritório da sua produtora

Apesar do vigia relatar ter visto Gil Rugai e uma outra pessoa não identificada saírem juntos da casa das vítimas na noite do crime, a Polícia Civil, só conseguiu apontar o estudante como o principal e único suspeito pelos assassinatos. A única pessoa investigada como suposta comparsa de Gil Rugai foi Maristela Greco, mãe do estudante. Mas como ela apresentou um álibi que convenceu os investigadores e foi descartada a participação dela no crime.

Em entrevista ao Fantástico em 2004, Gil Rugai negou ter matado as vítimas. “Nunca conseguiria fazer isso. Nunca conseguiria matar uma pessoa, imagina, é absurdo”, disse o estudante naquela ocasião.

Estratégia da defesa
A estratégia da defesa no júri de Gil Rugai será a de desqualificar as provas apresentadas pelo Ministério Público, negando que seu cliente matou o pai e a madrasta ao afirmar que o relacionamento dele com as vítimas era bom. Também dirá que a pegada na porta não é do réu e que o estudante estava em seu escritório quando o crime ocorreu. Sobre a arma do assassinato, dirá que ela foi ‘plantada’ pela polícia.

Gil Rugai chegou a ficar preso entre 2004 e 2006, mas teve a liberdade concedida pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Em 9 de setembro de 2008, no entanto, ele voltou à cadeia depois de ter o pedido de liberdade provisória revogado a pedido do Ministério Público, por ter mudado de cidade sem avisar o juiz. A defesa recorreu e o estudante foi solto em 10 de fevereiro de 2010.

Atualmente, o réu mora com a avó materna, Conceição, em uma casa no bairro do Sumarezinho. Procurados recentemente na residência, uma empregada afirmou que nenhum dos dois morava no local. Vizinho dizem que ele não estuda mais teologia e nem trabalha. Sua rotina ser resumiria a ir à missa todos dias.

Arte Julgamento Gil Rugai (Foto: Arte G1)