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O lado B das Copas: a expulsão que não tirou Garrincha da conquista do bi em 62

Na final contra a Tchecoslováquia, a seleção brasileira contou com os incríveis dribles de Garrincha. Só que ele havia sido expulso na semifinal. O que permitiu sua presença em campo?

24/05/2014 09:11

A Copa do Mundo de 1962, no Chile, foi a primeira em que se pode dizer que um jogador praticamente sozinho conduziu sua equipe ao título. Quatro anos mais velha em relação ao time campeão de 1958, a seleção brasileira conseguiu faturar o bicampeonato mundial em grande parte ao talento de um único jogador: Mané Garrincha. Desfalcado de Pelé, que sofreu uma séria distensão muscular ainda no segundo jogo do torneio, o Brasil contou com a genialidade do ponta do Botafogo para superar os adversários e levar o título.

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Após ser expulso na semifinal contra o Chile, Mané Garrincha é retirado de campo pelo técnico da seleção brasileira, Aimoré Moreira

O show de Garrincha começou já no terceiro jogo da fase de grupos, diante da Espanha. Os espanhóis começaram na frente e ainda foram prejudicados pela arbitragem, que não marcou um pênalti claro de Nilton Santos. Foi então que Garrincha decidiu o jogo, ao fazer dois cruzamentos perfeitos para Amarildo, substituto de Pelé, marcar os gols da vitória da seleção.

Nas quartas de final, Mané foi ainda mais decisivo diante da Inglaterra, marcando dois gols (um de cabeça, que não era sua especialidade) no triunfo de 3 a 1. A confiança de um novo show, portanto, era natural para a semifinal, diante do Chile. E o craque da seleção não decepcionou, fazendo os dois primeiros gols da vitória brasileira por 4 a 2, carimbando a vaga para a decisão.

A genialidade de Garrincha, contudo, era proporcional à intensidade com a qual os adversários tentavam pará-lo. E diante dos chilenos, não foi diferente. Foram 83 minutos aguentando provocações e pontapés dos marcadores, até que aos 38 minutos do segundo tempo, já cansado de apanhar, revidou uma agressão do lateral-esquerdo Rojas. O árbitro peruano Arturo Yamazaki Maldonado não teve dúvidas e expulsou Garrincha.

O pânico estabeleceu-se na delegação brasileira: como fazer para encarar a boa equipe da Tchecoslováquia na decisão da Copa sem Mané? Neste ponto, é importante fazer uma breve explicação. No Mundial de 1962, ainda não existia a utilização dos cartões amarelo e vermelho para sinalizar as punições em campo. Da mesma forma, não havia a suspensão automática. Todos os casos de expulsão em Copas eram analisados por um tribunal disciplinar, que poderia ou não impedir o atleta de participar do jogo seguinte.

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Na decisão contra a Tchecoslováquia, Garrincha não fez gol, mas teve atuação decisiva, inclusive dando o passe para o gol de empate de Amarildo

É justamente neste julgamento que começa o mistério envolvendo a presença de Garrincha na final. Durante muito tempo, creditou-se ao bom trabalho de bastidores feito pelo chefe da delegação brasileira, Paulo Machado de Carvalho, o fato dos dirigentes da Fifa terem absolvido o ponta-direita da seleção. Mas há quatro anos, uma nova versão para o caso apareceu.

Reportagem do programa “Esporte Espetacular”, da Rede Globo, de autoria de Guilherme Rosseguini, mostrou que os dirigentes brasileiros teriam subornado o bandeirinha uruguaio Esteban Marino, principal testemunha no lance da expulsão e que seria ouvida pela comissão da Fifa. A confirmação foi feita pelo ex-árbitro Olthen Ayres de Abreu, que estava no Chile na condição de reserva do juiz brasileiro designado para trabalhar no Mundial, João Etzel Filho.

Segundo Abreu declarou ao “Esporte Espetacular”, foi Etzel o encarregado de fazer a oferta de US$ 15 mil para Marino desaparecer e não dar o seu depoimento à comissão disciplinar. E foi justamente o que ocorreu. Como Marino era a única testemunha que teria visto a agressão de Garrincha a Rojas, o julgamento acabou anulado, permitindo a presença do brasileiro na decisão. Abreu ainda afirmou que anos depois, Estaban Marino (já falecido, assim como Etzel), lhe telefonou para reclamar que ele tinha recebido apenas US$ 5 mil como incentivo para voltar “mais cedo” ao Uruguai e não falar o que todos sabiam: que Garrincha tinha agredido o chileno e teria que ser suspenso.

Hoje, 52 anos depois, não é possível afirmar que mesmo sem Garrincha na decisão o Brasil teria vencido os tchecos. Mas em 1962, nenhum cartola brasileiro quis dar sopa para o azar e fizeram tudo o que podiam (e também o que não deveriam) para assegurar a presença do astro em campo, que deu o passe para o gol de empate de Amarildo e foi fundamental na vitória por 3 a 1, garantindo o bicampeonato mundial.

 iG São Paulo