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Alfinetada de FHC em Alckmin alimenta Huck e Parente

4/01/2018 00:28

Em entrevista ao jornal “Estado de S. Paulo”, publicada ontem, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso falou claramente a respeito da possibilidade de o PSDB abrir mão da eventual candidatura de Geraldo Alckmin. Segundo FHC, se o governador paulista não demonstrar viabilidade eleitoral, o PSDB deveria dar apoio a um nome “com mais capacidade de juntar”.

Nos bastidores do PSDB, do PMDB e do Palácio do Planalto, a entrevista foi interpretada como um movimento do ex-presidente para viabilizar um Plano B no PSDB se Alckmin continuar a ter desempenho ruim nas pesquisas.

As declarações de FHC surpreenderam tucanos, peemedebistas e ministros do Palácio do Planalto porque, neste momento, o ex-presidente deveria ter depositado mais fé em Alckmin, que enfrenta, inclusive, um embate interno com o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio.

Alckmin é o favorito para ser escolhido como candidato do PSDB a presidente. Na máquina tucana, o governador paulista é forte. Mas FHC apontou a fragilidade eleitoral que essa escolha pode representar para o PSDB.

Sem meias palavras, FHC abriu a possibilidade de cristianização de Alckmin. Na política, o termo cristianização foi cunhado na eleição de 1950. Naquele ano, o antigo PSD (Partido Social Democrático) lançou Cristiano Machado à Presidência, mas ele foi abandonado por líderes do partido, que embarcaram na candidatura de Getúlio Vargas, do PTB, que foi eleito.

FHC cogitou “cristianizar” Alckmin já na largada, antes mesmo de o PSDB escolhê-lo para disputar o Palácio do Planalto. O ex-presidente foi cristalino ao falar na necessidade de Alckmin mostrar viabilidade eleitoral para ser o candidato tucano à Presidência. Nem os adversários do governador paulista fizeram crítica tão dura a ele. A entrevista de FHC provocou um estrago nos planos eleitorais de Alckmin.

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Huck e Parente

Na entrevista, FHC disse que não via qual nome poderia substituir Alckmin. Mas, nos bastidores do PSDB e do Palácio do Planalto, a leitura foi a seguinte: o Plano B de FHC poderia ser a volta de Luciano Huck ao xadrez eleitoral ou o lançamento de um novo balão de ensaio, o presidente da Petrobras, Pedro Parente.

Num artigo na “Folha de S.Paulo” no final do ano passado, Huck anunciou que não pretendia ser candidato, mas deixou a porta aberta para eventual recuo. O prazo de filiação partidária vai até 7 de abril. Portanto, ainda haveria tempo para uma mudança de planos.

FHC é um dos maiores incentivadores da eventual entrada de Huck na política. O ex-presidente crê que ele poderia crescer nas pesquisas e fazer frente às pré-candidaturas do ex-presidente Lula e do deputado federal do PSC Jair Bolsonaro.

Parente é filiado ao PSDB. Em entrevista no ano passado, o presidente da Petrobras negou a intenção de ser candidato. No entanto, FHC sugeriu essa possibilidade a ele. Parente seria um balão de ensaio, mas também um nome mais consistente administrativa e politicamente do que Huck.

Parente foi ministro da Casa Civil no governo FHC, gerenciou a crise do apagão em 2001, tem experiência na iniciativa privada e na burocracia pública e está descascando o abacaxi da Petrobras em plena Lava Jato.

FHC não crê na viabilidade do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, do PSD. Acha que falta estrada ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do DEM. Não acredita numa tentativa de reeleição do presidente Michel Temer pelo PMDB. Tem dúvida sobre a viabilidade eleitoral de Marina Silva, da Rede. E avalia que o prefeito de São Paulo, o tucano João Doria Jr., perdeu o bonde.

Para tucanos e ministros palacianos, a entrevista ao “Estadão” mostrou que FHC tampouco bota fé em Alckmin e busca uma novidade para se contrapor a Lula e Bolsonaro.

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O pessoal tá meio perdido

Nessa busca, políticos do PSDB, do PMDB e de partidos da base do governo têm falado num nome que represente o centro. O que isso significa na atual conjuntura?

O centro na política brasileira pode ser entendido como um segmento decisivo do eleitorado que ora pende para a direita, ora para a esquerda.

Se há um partido que representa o centro político, ele é o PMDB, que esteve em todos os governos desde a redemocratização do Brasil em 1985. No entanto, o PMDB não tem um nome forte e tampouco possui ideologia firme.

O PMDB oscila para abraçar o poder de plantão. Já foi bem estatizante. No governo Temer, encampou bandeiras do liberalismo econômico que rejeitou no passado a fim de se credenciar perante o mercado financeiro para substituir a administração Dilma.

Quando políticos como FHC falam num nome de centro para disputar a Presidência, isso significa, em última instância, que o campo político de direita e centro-direita está à procura de um candidato para enfrentar Lula que não seja Bolsonaro.

O deputado federal do PSC ocupou um espaço importante nesse campo político, tirando voto do PSDB. A ascensão de Bolsonaro nas pesquisas coincide com a queda de tucanos nesses levantamentos.

A política econômica de Lula quando ele governou o Brasil foi de centro. Não teve nada de radical. Os que buscam um nome de centro tentam carimbar o petista como se ele fosse um extremista. Isso é falso.

Bolsonaro, sim, é um extremista, mas já está buscando pontes com o mercado financeiro e moderando opiniões. No entanto, Bolsonaro não é considerado confiável. É visto como um Donald Trump piorado.

Lula é um político de esquerda que se mostrou moderado no exercício do poder. O petista está fazendo um ajuste no discurso, buscando a moderação que o levou a conquistar o Palácio do Planalto na eleição de 2002.

Portanto, essa conversa de candidato de centro é uma fórmula de dourar a pílula para achar uma alternativa eleitoral a Lula e Bolsonaro. Mas o pessoal está meio perdido.

www.reporteriedoferreira.com.br       com KENNEDY ALENCAR 
SÃO PAULO