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A Pomba da Paz – Marcos Souto Maior

18/07/2012 00:52

O dia era nublado ameaçando o sol brilhar no firmamento, num dia de atividades e trabalhos normais no Rio de Janeiro.

Em meio à violência e à poluição sem controle, o carioca não muda o semblante de um povo que não enjeita momentos de pura alegria.

Botequins sempre lotados e os famosos barzinhos das esquinas da vida servindo no balcão: caninha, chope e uísque. O assunto mais discutido e comentado é sempre o futebol, onde nunca se chega a uma conclusão, contudo, todas as cores se confraternizam num brinde à cidade maravilhosa!

Um assunto, no entanto, fora levado a conhecimento de todos com o falecimento do Cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales, também Arcebispo do Rio de Janeiro por trinta anos de bons serviços prestados aos católicos e ao povo brasileiro em geral.

A notícia chegou rápida e teve quem comentasse sentado no tamborete do bar que, nos idos dos anos setenta, em pleno regime militar brasileiro, Dom Eugênio Sales teve a coragem cívica de socorrer e acolher cerca de cinco mil perseguidos pelo Cone Sul. Oitenta apartamentos foram locados pela Arquidiocese até que os refugiados conseguissem ajuda para o repatriamento. Por este motivo, chegou a ser chamado pela turma repressora de órgãos de informação do governo militar de “bispo vermelho”.

Nos mais recentes tempos, o Cardeal fora também conhecido pelo “homem forte da Igreja Católica”, sendo porta-voz do Papa João Paulo II, lhe sendo atribuída a missão de trazer a mais alta autoridade católica ao nosso país, nas duas visitas ao Brasil.

Sabedor do falecimento, o voluntário da Cruz Vermelha, Gilberto de Almeida, ao passar num Pet Shop no Engenho do Meio, se lembrou de Dom Eugênio e comprou uma pombinha branca, como símbolo de uma pessoa do bem, levando-a até o velório.

As portas da Catedral do Rio de Janeiro estavam escancaradas! O caixão do Cardeal norte-riograndense colocado no centro da nave cotejado por militares perfilados em farda de gala, numa reverência ao destacado homem público.

Gilberto chegou meio assustado com as formalidades de chefe de estado e o rito do encomendamento do corpo do bondoso padre, aproximou-se tímido e devagarzinho, com a pombinha branca na mão. Lenta e respeitosamente foi estirando seu braço até colocá-la em cima do caixão!

A linda ave ficou paralisada, como se estivesse numa missão a cumprir. Os olhos das pessoas presentes ficaram vidrados na inusitada cena de puro amor!

Com o término das exéquias, a pombinha branca fora retirada de cima caixão e, delicada e suavemente, fora alçada aos ares sob o olhar de uma multidão envolvida em lágrimas de adeus.

A figurinha branca voou de um lado para o outro, e quando o corpo fora colocado em cima de uma viatura do Corpo de Bombeiros, ela deu mais uma volta nos ares e, tremulando suas penas ao sabor dos ventos, continuou sua homenagem pousando no caixão.

A pomba branca da paz, na singeleza do seu gesto, prestou a maior homenagem que o homem não conseguiu fazer!

 

 

(*) Advogado e desembargador aposentado