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Repressão a islamitas no Egito beneficia Al-Qaeda, dizem analistas

Rede terrorista pode recrutar novos adeptos e abrir nova frente no país. Governo reprime violentamente manifestantes pró-presidente deposto.

23/08/2013 05:16

Egípcios fazem protestos pelo fim da violência no país, nesta quinta-feira (22), em frente à Casa Branca, em Washington (Foto: AFP)Egípcios fazem protestos pelo fim da violência no país, nesta quinta-feira (22), em frente à Casa Branca, em Washington (Foto: AFP)

A sangrenta repressão à Irmandade Muçulmana no Egito beneficia a rede terrorista da Al-Qaeda, que pode aproveitar para recrutar novos adeptos e abrir uma nova frente no Oriente Médio, afirmam os especialistas consultados.

A ação violenta e o terrorismo podem levar a uma nova geração de ativistas convencidos pelas palavras agressivas do líder do movimento fundado por Osama bin Laden, o egípcio Ayman al-Zawahiri, que condena a via democrática e incentiva a luta armada.

“Tememos que a sangrenta resposta às manifestações pacíficas encoraje uma minoria islamita convencida da futilidade da via política a dar o salto em direção à violência”, indica à AFP Jean-Pierre Filiu, professor do Instituto de Estudos Políticos (Sciences Po) de Paris, autor de “Novo Oriente Médio”.

“Os militares egípcios terão, assim, alimentado o terrorismo contra o qual pretendem lutar.”

Em uma declaração publicada na internet no início do mês nos fóruns jihadistas, o chefe da Al-Qaeda, que teve seu irmão detido no Cairo, tenta convencer os internautas de que a repressão em andamento prova que as eleições são uma ilusão e que apenas a jihad e a luta armada podem permitir o advento de um regime realmente islâmico.

“Para Al-Zawahiri”, afirma Bruce Riedel, ex-funcionário de alto escalão da CIA, “os egípcios devem seguir o caminho de Mohamed Atta, o egípcio que comandou os terroristas do 11 de Setembro, e usar o terror contra o inimigo que está próximo, o Exército egípcio, e o inimigo que está distante, os Estados Unidos, que armaram e treinaram os militares egípcios desde que o ex-presidente Anwar al-Sadat assinou a paz com Israel, em 1979”.

“O futuro da jihad global é decidido neste verão no Egito. A próxima geração da Al-Qaeda está nascendo”, acrescenta Riedel, hoje influente analista do Brookings Institution, um grupo de reflexão de Washington.

Na internet, já se multiplicam as convocações para os potenciais jihadistas seguirem para o Cairo.

No dia 5 de julho, um novo grupo, batizado de “Ansar al-Sharia no Egito”, anunciou sua formação, afirmando que “foi declarada a guerra contra o Islã no Egito” e pedindo que os fiéis “se preparem conseguindo armas e treinando”.

Em várias mensagens, os islamitas somalis shebab também convocam os muçulmanos do Egito e do mundo a “tomarem as armas”.

“Esqueçam os chamados à democracia, peguem em armas e se defendam dos carniceiros que se propuseram a fazer com vocês um massacre”, proclamam os shebab em sua conta oficial no Twitter.

No fórum jihadista Shumuj al-Islã, um participante, que assina com o pseudônimo de Abu al-Kheir al-Filistini, convoca o “envio rápido da Al-Qaeda ao Egito para defendê-lo”, em declarações traduzidas pelo serviço de vigilância de sites islamitas SITE Institute.

Para Alair Chouet, ex-chefe do serviço de inteligência de segurança do DGSE (Serviços de inteligência franceses), profundo conhecedor da região, as perspectivas são sombrias porque “ambas as partes são incapazes de negociar: não cederão nem um milímetro porque ceder um pouco seria enviar um sinal de fraqueza, e o outro logo pediria o dobro”.

Como muitos analistas, compara a situação com a da Argélia em 1992, quando foram canceladas as eleições gerais que os islamitas estavam perto de ganhar, embora também tenha ressaltado que há diferenças.

“Tecnicamente, o método é o mesmo” (a tomada do poder pela força militar), “mas as populações não são as mesmas e existe na Argélia um contexto de violência política e de terrorismo desde 1945, que no Egito não existe.”

Os especialistas consultados consideram que os partidários de um jihadismo armado podem encontrar as condições para criar uma nova base na península do Sinai, tradicionalmente mal controlada pelas autoridades egípcias.

“A gestão do Sinai como uma zona militar pelos governadores militares contribuiu amplamente para entrincheirar nas tribos beduínas redes jihadistas que hoje são uma ameaça para o Egito e para Israel”, afirma Jean-Pierre Filiu.

“A manutenção do bloqueio de Gaza também alimenta uma economia de tipo mafioso aproveitada pelas redes jihadistas e pelos traficantes de armas”, acrescenta.

Bruce Riedel lembra que “os jihadistas já possuem uma base no Sinai, onde dezenas de ex-prisioneiros islamitas se refugiaram desde a revolução de 2011 (…). É o local perfeito para atacar Israel, sobretudo pelo fato de que as armas provenientes da Líbia invadiram a região há dois anos”.

G1