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‘PC chinês não consegue fazer grandes reformas’

Aos 92 anos, Sidney Rittenberg gosta de dizer que "tinha o dedo no pulso da história".

13/11/2012 16:35

Aos 92 anos, Sidney Rittenberg gosta de dizer que “tinha o dedo no pulso da história”. Único norte-americano admitido por Mao Tsé-tung nas fileiras do Partido Comunista, ele chegou à China ainda em 1945, como enviado do Exército, e acabou se unindo aos guerrilheiros que quatro anos mais tarde tomariam o poder.

Nesse período, chegou ao comando da Rádio China e ganhou popularidade por seus discursos inflamados em defesa da violenta Revolução Cultural (1966-76), que perseguiu intelectuais, mas também amargou pouco mais de 15 anos de prisão, a maior parte do tempo em solitária.

Hoje consultor de empresas, Rittenberg participou ontem em Pequim da exibição do documentário “The Revolutionary”, baseado em cinco anos de depoimentos seus.

A seguir, trechos da conversa com jornalistas estrangeiros, em que previu que a nova liderança, que assume o partido nesta quinta, fará reformas moderadas:

Herança da Revolução Cultural – O principal efeito nos líderes é que os fizeram ter medo de qualquer tipo de turbulência e, portanto, de fazer uma reforma política. Eles têm medo de que a imprensa livre, a crítica livre etc. produziriam caos e turbulência novamente. Eu penso exatamente o contrário, que o perigo da instabilidade está na não realização de reforma.

Se você tiver uma crise econômica grave, em que um número substancial de pessoas tenha queda na qualidade de vida, talvez você esteja com um problema sério, porque seus problemas e opiniões estão reprimidos.

Mas eles [os líderes] têm esse tipo de pesadelo sobre o que viram na Revolução Cultural e que eles não vão deixar acontecer novamente.

Acho que houve um lado positivo desse Holocausto –fez com que se tornasse impossível de acontecer de novo na China. As pessoas agora veem os seus líderes de forma crítica. Por um lado, parece falta de fé em comparação com o passado, mas isso é mais positivo.

Partido Comunista nos anos 1940 e agora – É algo totalmente diferente. Tem o mesmo nome e a mesma tabela de organização, mas é totalmente diferente. Eu atravessei dois estágios diferentes no velho partido. A primeira foi antes de chegar ao poder, quando os comunistas estavam basicamente realizando uma revolução agrária. (…)

A única maneira de sobreviver e crescer era apelando ao povo, sobretudo aos camponeses, por apoio. Quando iam a uma vila, tinham de buscar água, varrer o chão, para mostrarem que eram um tipo diferente de partido.

Agora, eles não têm de pleitear apoio.

A Constituição afirma que eles são o partido no poder, que você tem de seguir a sua liderança. Então, de servos, eles se tornaram os senhores do povo.

Reformas – É muito provável que eles farão reformas. Com quem quer que você fale na China, esquerda, centro e direita, você ouvirá: “Tem de haver, isso não pode continuar”. Mas as pessoas querem dizer coisas bem diferentes.

Acho que a nova liderança fará algumas reformas, que, acredito, não farão o chão tremer, não mudarão as regras do jogo. Eles não têm a força para fazer isso neste momento. A resistência a reformas estruturais é muito poderosa.

Esses enormes conglomerados estão indo muito bem e não têm desejo de mudar o status quo. E há a inércia dentro do gabinete, pessoas que não são contrárias à mudança, mas que não querem o trabalho de passar por isso.

Folha