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Ex-presidente diz que queda da Lusa foi comprada

18/06/2015 17:19

Ilídio-LicoIlídio Lico tomou posse dias após escândalo da utilização irregular de Héverton / Fernando Dantas/Gazeta Press

 

Foram quase três meses de silêncio absoluto desde o dia 20 de março, data em que renunciou à presidência da Portuguesa. Mas a primeira entrevista de Ilídio Lico foi polêmica.

Em três contatos telefônicos com o DIÁRIO, na última quinta-feira, o dirigente fez uma série de acusações, entre elas, a de que a Unimed, então patrocinadora do Fluminense, esteve por trás da escalação de Héverton na última rodada do Brasileirão de 2013 — o meia estava suspenso, o que causou a perda de quatro pontos da Lusa e culminou com seu rebaixamento.

Fluminense e o Flamengo foram beneficiados. O Tricolor em um primeiro momento, pois deixou a zona de rebaixamento, e o Rubro-Negro dias depois, devido à punição imposta pela escalação de André Santos, que o colocaria na zona da degola não fosse a Lusa.

Em mais de uma hora de conversa, Ilídio isentou Héverton de culpa no escândalo, classificou a Série C como o “caos” por causa da inexistência de cota de televisão, admitiu ter se arrependido de assumir o clube em janeiro do ano passado, reclamou da politicagem interna no Canindé e explicou os motivos que o levaram a renunciar à presidência.

DIÁRIO_ Por que o senhor renunciou à presidência da Portuguesa apenas 14 meses depois de tomar posse?

ILÍDIO LICO_ Porque percebi que não dava mais para administrar o clube. E quero deixar claro que eu que saí e não me tiraram, porque não fiz nada de errado em meu favor. A receita do clube não chegava a R$ 200 mil e as despesas passavam de R$ 1 milhão. Sem contar que penhoraram minhas propriedades, bloquearam minhas conta bancárias…

Desde a escalação irregular do Héverton, em 2013, a Portuguesa foi rebaixada três vezes, sofreu uma enxurrada de processos, corre o risco de ver o Canindé ir a leilão… Acha que a Lusa pode acabar?

Não acredito que vá acabar, mas disputar a Série C sem cota de televisão torna a gestão do time de futebol profissional quase impossível. Ficar nessa série é um caos.

O “Caso Héverton” segue sem solução. O que o senhor acha que aconteceu?

Com toda a certeza, isso foi premeditado. Um senador falou que a Unimed pagou um dinheiro muito grosso. Mas sabe como é a Justiça no Brasil. E ninguém dá recibo. De qualquer forma, tenho esperança de que um dia isso vai dar em alguma coisa.

O senhor contou sobre essa conversa do senador ao Roberto Senise, que investiga o caso pelo Ministério Público?

Nunca falei disso com o Senise. Precisaria da autorização do senador para falar o nome dele. Nunca pedi autorização.

O senador é de São Paulo?

(A linha cai e, após nova ligação, Ilídio atende) Não posso falar o nome dele. Meu filho está falando aqui para não falar o nome dele, porque pode o Ministério Público me chamar lá e chamar o senador. E começa a engrossar, viu? Fica ruim para mim.

O senhor acha que a Unimed tem participação ou o Fluminense?

Segundo o… a Unimed que pagou.

Coisa de milhão, presidente, ou coisa pouca?

Pagamento em grandes quantias, né?

E com participação do Fluminense ou não?

É claro que o interessado é o Fluminense, naturalmente. Agora, te afirmar quem é que está interessado? O Fluminense que está interessado. É óbvio, né?

Acredita que o Héverton possa ter algo a ver?

Não acredito muito nisso, não. Não estou muito preciso para cima do Héverton e do treinador (Guto Ferreira). O jogador, não. Colocaram no banco, ele é profissional e entrou. Vejo por aí (Héverton disputou os 15 minutos finais do jogo contra o Grêmio, na última rodada).

E o Manuel da Lupa (então presidente da Lusa)?

Ele é o presidente, né? Pelo menos tem de saber o que está acontecendo com o clube.

O senhor tem provas? Ou o senador?

Ele não tem provas. Mas a sujeira da Fifa está vindo à tona. A Portuguesa não está aguentando mais essa situação.

Tem realmente esperança de uma reviravolta? Como a Portuguesa poderia ser ressarcida em caso de comprovação?

Quem sabe… Se vier a acontecer, vão ter de subir a Portuguesa ou ressarcir uma quantia muito grande. Eu preferia que a Portuguesa subisse para a Série A, até porque ela teria uma cota bem maior (de televisão).

Antes de sair da presidência, o senhor avançou na negociação do terreno com a construtora Kauffmann. O que estava sendo discutido?

Não é vender o Canindé, como dizem. A ideia era comprar parte do terreno que está em comodato com a Prefeitura (cerca de 40% da área útil) e, a partir daí, construir nove torres comerciais e residenciais. A Portuguesa teria direito a uma renda mensal, que manteria o clube, ganharia outra arena menor e teria todas as dívidas pagas, como a da Gislaine (Nunes, advogada que representa uma série de atletas).

É a salvação da Portuguesa?

A salvação é essa. Com a Kauffmann, que eu considero uma empresa muito séria, ou com alguma outra. Seria a maneira de a Portuguesa se levantar, porque teria uma renda mensal e uma arena muito bonita.

Arrependeu-se de ter assumido a presidência da Lusa?

Sim, porque não consegui fazer o que queria. Também deixei o futebol muito de lado, porque tinha de resolver as questões fora de campo. A queda para a Série B tirou milhões de reais em cotas de TV. E aí ficou impossível fazer algo sem dinheiro.

Por que o time na sua gestão caiu da Série B para a Série C do Campeonato Brasileiro pela primeira vez na história?

Muitos cartolas da Portuguesa me atrapalharam. Não em relação a dinheiro, mas no que diz respeito à vaidade. A gente também não conseguiu cumprir as promessas salariais. Aí, fica difícil de exigir algo dos jogadores se você não cumpre.

Mas o senhor sentiu que houve algo premeditado por parte dos atletas?

Não, não. Só o Valdomiro (então capitão), que era muito mala. Não exercia uma liderança positiva, porque criticava muito os jogadores. Com o tempo, eles descobriram e passaram a não gostar dele. O Valdomiro era um jogador em fim de carreira, pesado e ruim de grupo.

Como se sentiu diante do pedido de impeachment que foi aprovado pelo COF (Conselho de Orientação Fiscal) da Lusa antes da sua renúncia?

Eu me senti muito mal, a ponto de não conseguir dormir. Até hoje me criticam, mas, na realidade, queriam que eu fosse uma rainha da Inglaterra, ou seja, queriam mandar mais do que eu. Aí, eu reuni alguns deles e falei: querem mandar, ponham o CPF aqui. Mas ninguém quis pôr.

O senhor nunca mais pisou no Canindé. É um caminho sem volta?

Vou voltar a frequentar o Canindé, com certeza. Gosto de muita gente de lá, tenho uma série de amigos e sinto falta de ir, por exemplo, ao restaurante. É que a ferida ainda está aberta. Eu não merecia ser alvo de um pedido de impeachment, como ocorreu. Mas acho que é uma questão de tempo.

Por que o senhor deixou de pagar o salário do Gabriel Xavier, grande promessa do clube, e que quase saiu de graça?

Eu tentei pagar, mas as pessoas que se diziam torcedoras da Portuguesa e tinham condição financeira de ajudar me viraram as costas. Ninguém quis colaborar em nada. E ninguém pode se esquecer de que eu arrumei R$ 2,5 milhões em 2013, na reta final do Brasileirão, para pagar todos salários atrasados. Os jogadores estavam ameaçando greve antes do jogo contra a Ponte Preta.

RESPOSTA DA UNIMED

Presidente da Unimed, Celso Barros ficou furioso com a acusação de Ilídio Lico de que

a então patrocinadora do Fluminense pagou para Héverton ser escalado de maneira irregular. “Isso é um total absurdo. Depois de tanto tempo, ele vem querer justificar o fracasso da Portuguesa por outros motivos”, reclamou Barros. “Eu nunca tive contato com o Héverton nem com nenhum dos dirigentes da Portuguesa na época. E tem outra: ele (Ilídio) não tem prova. Eu repudio com veemência essa acusação e, se ele insistir com isso, vou processá-lo por injúria, calúnia e difamação”, ameaçou.

Responsável por gerir a parceria de 15 anos entre o Fluminense e a cooperativa de médicos, Barros ainda afirmou que foi pego de surpresa e voltou a atacar o ex-presidente da Portuguesa. “Eu nunca ouvi qualquer comentário desse tipo, de que a Unimed poderia estar por trás. E nem sei quem é esse senhor. A Unimed não tem nada a ver com isso.”

RESPOSTA DO FLUMINENSE

Advogado do Fluminense ao longo do processo que causou a perda de quatro pontos à Portuguesa e a queda para a Série B, pelo uso indevido de Héverton, no fim de 2013 e início de 2014, o agora vice-presidente de futebol do Tricolor, Mário Bittencourt, assegurou que o clube carioca processará Ilídio. “Uma vergonha que eles ainda continuem falando sobre isso. Um presidente expulso por improbidade e outro que renunciou por incompetência”, disse Bittencourt.

RESPOSTA DE MANUEL DA LUPA

Por meio de sua assessoria jurídica, o presidente da Lusa durante o “Caso Héverton” garante ter enviado um telegrama ao senador Romário pedindo que tal situação também seja alvo de investigação na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da CBF. Da Lupa assegurou que enviou vários documentos ao senador e garantiu que não tem qualquer participação no episódio.

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