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Enigmas de Adriano: na pior fase da carreira, atacante pensou em suicídio

Primeiro capítulo de perfil do jogador mostra histórias do menino pobre que se transformou em Imperador com vida polêmica dentro e fora de campo

18/09/2012 20:47

O que se passa na cabeça de Adriano? A pergunta é recorrente; a resposta, eterno ponto de interrogação. Um perfil traçado pelo GLOBOESPORTE.COM mostra uma pessoa de frágil estrutura psicológica e emocional, que sofreu perdas irreparáveis, causou graves danos à sua carreira, com consequências dentro e fora de campo. Uma linha do tempo do atacante – do berço aos 30 anos – retrata uma vida na corda bamba. Os desequilíbrios terminaram em tombos. No seu retorno ao Flamengo, o jogador faltou a dois treinos nos primeiros 12 dias, e a problemática relação com bebida alcoólica voltou à tona. Mesmo com o reinado em ruínas, o Imperador rejeita o remédio recomendado por todos que o cercam: receber ajuda de um profissional que tente decifrar os enigmas de uma cabeça que já pensou até em suicídio durante uma crise de depressão.

Em meio à avalanche de problemas entre 2008 e 2009 – quando resolveu deixar o Internazionale de Milão para dar um tempo na carreira -, Adriano convocou a mãe para uma conversa. Diante de uma atônita Rosilda, o jogador desabafou, disse que deixara de acreditar em Deus. Não tinha mais crença nem em si mesmo. Em vez de oração, proferiu a palavra suicídio.

O diálogo entre a mãe desesperada e um filho desnorteado, na casa dele em Milão, em 2008, foi chocante:

– Ninguém sabe o que estou passando. Ninguém está aqui dentro de mim. Estou com vontade de me matar – desabafou Adriano.

– Mas o que falta para você? Por que isso, meu Deus? – questionou Rosilda.

– Não sei. Teve dia em que não tirei minha vida por causa de vocês. Quando penso em fazer isso, penso em vocês. Sinto falta da família – respondeu o jogador.

Longe da família, Adriano mergulhou fundo, parecia se afogar na depressão. A conversa terminou com Rosilda aos prantos. Aos gritos, ela partiu para cima do jogador que, na visão da mãe, “estava se acabando, querendo se destruir”.

Na cabeça do jogador, a filosofia de um suicida:

– Estava sofrendo muito, comecei a desacreditar até em Deus, a quem sou muito apegado. Estava na Itália ainda. Deus não existe, eu dizia. Às vezes, pensava que, se fosse para fazer minha família chorar e sofrer, eu preferia ir embora. Nunca tive medo de morrer, de fazer nada da minha vida. Sempre fiz o que acho que tinha que fazer. Aquilo que quero, eu faço. Esse é meu lado homem. Foi muito complicado.

As dificuldades e complicações vêm de berço. Traumas e choques, suor e luta, dureza e dinheiro moldaram e deformaram a personalidade de Adriano. Ele nasceu em meio à pobreza da Vila Cruzeiro onde, ainda neném, revezava banhos na piscina Tone e na bacia, além de participar de churrascos com a família na laje. A programação de infância é mantida até hoje. De berço, a favela virou um imã para o jogador. Os copinhos de plástico que serviam guaraná genérico para matar a sede de Didico, apelido de família, deram lugar a doses de cerveja e uísque para Adriano.

– O primeiro passo é a pessoa admitir e aceitar que precisa de tratamento. Só o Adriano pode querer isso, ninguém mais pode falar ou fazer por ele – afirmou o psicólogo Paulo Ribeiro, que acompanhou Adriano de perto em 2009, quando ainda trabalhava no futebol do Flamengo.

Consultas raras com psicólogos

No Rubro-Negro, em 2009, Adriano buscou no seu clube de coração, na cidade em que nasceu e perto da família, a alegria perdida na Itália. Foi campeão e artilheiro do Brasileirão, mas continuou com um currículo de indisciplinas e abusos fora de campo.

É unanimidade entre amigos, família e profissionais que conviveram com Adriano que ele precisa de acompanhamento de profissional da área de psicologia ou psiquiatria. Mas, à exceção de meia dúzia de consultas quando estava no São Paulo e no Flamengo, o jogador nunca aceitou a ideia.

– Hoje eu não preciso, com certeza. Precisava quando passei aquela depressão, quando falei para todo mundo o meu problema (com bebida alcoólica), ali eu tive (ajuda). No São Paulo, eu tive psicólogo. Em 2009, cheguei a fazer quatro ou cinco sessões com um psicólogo. Hoje, não tenho mais necessidade, sinto isso. Se precisar, vou comunicar ao Flamengo, tenho idade bastante para saber quando estou precisando ou não. Mas hoje estou feliz. Se der uma escorregada, aí, sim. Opa: “Zinho, tô precisando disso, disso, disso” – disse Adriano, em recente entrevista.

O atacante escorregou e faltou ao treino do Rubro-Negro do último dia 3 para curtir o dia na Vila Cruzeiro, com amigos. Ele foi visto caminhando pelas vielas do local carregando garrafas de cerveja. Ao deixar a favela dirigindo seu BMW se chocou com uma moto. Escorregou, mas novamente acredita que pode se reerguer sozinho.
Ainda pequeno, Adriano impressionava pela mistura da pele negra com cabelos louros encaracolados no estilo “sarará”. Os anos passaram, e o que começou a chamar atenção não foi o corte com máquina zero, mas, sim, os mil e um problemas por debaixo das caraminholas do Imperador.

A família sempre foi o porto seguro de Adriano, mas também a causa da dor pela ruptura que aconteceu aos 18 anos, quando ele foi jogar na Itália. Depois, em 2004, a morte do pai, Almir, o Mirinho da Vila Cruzeiro, foi uma rasteira do destino que levou o jogador à lona.

Adriano se enrola com as próprias pernas, e também com datas. Por diversas vezes, o jogador apontou a morte do pai como um dos seus principais baques depois da Copa de 2006. O problema com Mirinho, porém, aconteceu em 2004, bem antes da derrocada do Imperador.

Caso nebuloso provoca devastação em 2006

Em quatro capítulos, o GLOBOESPORTE.COM traça um perfil de Adriano e revela histórias nebulosas, como a trama de chantagem e morte de um amigo às vésperas da Copa do Mundo da Alemanha. Os relatos são contados a partir de diversas entrevistas do jogador durante a carreira, relatos de amigos, palavras de profissionais com quem trabalhou, e principalmente de Rosilda e da avó Wanda. Para elas, Adriano é uma criança grande: com bom coração, mas inconsequente, que se abate ao extremo com adversidades.

O atacante rasgou milhões de euros em troca de felicidade gratuita. Troca o conforto e o luxo de mansões pelas vielas das favelas, onde diz se sentir em casa. A Vila Cruzeiro é seu abrigo, seu choque para voltar à realidade.
– Gosto de andar na minha comunidade, como todo mundo sabe. Me faz sentir humano, me faz sentir pessoa de verdade. Serve para ver a realidade, pessoas que precisam de pouco e estão felizes – diz.

Nem sempre Adriano esteve feliz, e buscou consolo na bebida, principalmente a partir de 2006. Nunca ligou para dinheiro. Por experiência própria, sabia como sobreviver com pouco, quase nada. Mas, quando teve muito, se perdeu. Saiu da favela.

Aos 18 anos, estava em Milão. O Didico virou Imperador. No entanto, não estava preparado para a vida na realeza. Sua vocação combinava mais com a de um plebeu.

– Adriano é um homem, ao mesmo tempo é uma criança. Quem convive com ele sabe que é uma criança grande. Morávamos na Vila Cruzeiro, as condições muito difíceis, via cada coisa terrível. Com 18 anos, ele foi para fora, ficou muito tempo sem a família. É um homem muito bom, que passou por muita coisa. Talvez, se ele fosse mais duro, soubesse falar não… – relatou Rosilda, em depoimento sobre o filho que figura nos arquivos da TV Globo.
Histórias, pequenos causos até hoje não revelados, testemunha de violência na infância, a carreira do desajeitado lateral-esquerdo que virou atacante, a vida do berço até os 30 anos. Um perfil de Adriano tenta desvendar os enigmas de um Imperador fabricado pelo futebol, mas um eterno menino pobre da favela.

*Nesta matéria, há trechos de entrevistas inéditas de Adriano, de sua mãe, Rosilda, e de sua avó, Wanda, concedidas ao repórter Tino Marcos, da TV Globo, antes da Copa do Mundo de 2010

Globo Esporte