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Professora grevista diz que classe virou “depósito de aluno”

Enquanto mães reclamam da paralisação de docentes em São Paulo, líder prevê aumento da adesão até sexta-feira

25/04/2013 01:20

greve dos professoresAtrás de uma mesa tomada por panfletos de esquerda, a professora de história aposentada Nilcéa Fleury, uma das líderes da greve instaurada no Estado de São Paulo na última sexta-feira (19) em uma assembleia no vão livre do Masp, na Avenida Paulista , desenha uma situação caótica nas escolas da periferia como justificativa para a paralisação que ela ajuda a sustentar. A também diretora do sindicato dos professores (Apeoesp), vestida com uma camiseta com o carimbo “LUTO pela escola pública”, reclama da dificuldade de manter em ordem uma sala com 30 alunos dos ensinos fundamental e médio. “Nossa meta é chegar a 20 estudantes por sala. As classes viraram um depósito de alunos.”

O estresse causado pela “superlotação” seria tamanho que responderia pela brigas “cada vez mais frequentes” entre alunos e professores. “Na terça-feira (16), em uma escola na Freguesia do Ó, um aluno jogou um livro pesado no rosto de um professor, que registrou o fato em um boletim de ocorrência”, conta.

Mas a “falta de estrutura” e a violência nas escolas estaduais seriam apenas parte do problema. A principal razão da greve é o reajuste de 8,1% concedido recentemente pelo Estado , percentual bem abaixo da reivindicação de 36%. “Professores têm menos direitos do que um bóia fria”, exagera. A Apeoesp diz que o reajuste proposto pelo governo é na verdade “reposição das perdas que remontam a 2011”: “não é reajuste salarial.”

A paralisação, no entanto, é desdenhada pelo governo do Estado e pouco representativa: pelo menos 76% dos professores não cruzaram os braços.

No País: Professores fazem paralisação até quinta em 22 Estados, segundo sindicato

O governo respondeu em nota que “os 8,1% de acréscimo eleva de 42,2% para 45,1% o aumento escalonado até 2014” e, que, “desse modo, os professores da rede estadual paulista, que já ganham 33,3% mais que o piso nacional vigente, passarão a ter, a partir de julho, uma remuneração 44,1% maior que o vencimento mínimo estabelecido em decorrência da Lei Nacional do Piso Salarial Magistério Público”.

Desconsiderando a greve, a Secretaria Estadual de Educação informou que as aulas vêm ocorrendo normalmente e até recomendou que “pais e alunos mantenham sua rotina e não deixem de ir à escola”. Segundo a pasta, houve aumento de apenas 2,3% nas ausências em relação à média diária de 5%.

Mesmo nas contas do sindicato, os “fura greve”, como Nilcéa se refere aos professores que se mantêm em sala de aula, somariam 76%. “Começo de greve é assim”, disse ela. “Até sexta-feira (26), muitos terão aderido.”

Crianças sem aulas

Nilcéa lamenta que a “necessidade de paralisação” afete as mães que trabalham e não têm com quem deixar suas crianças. “Meu filho de 18 anos cuida do de 10 na parte da manhã. Depois ele fica sozinho em casa”, explica a cozinheira Josélia dos Santos, 41 anos. “É angustiante não ter com quem deixá-lo.”

Nesses dias de greve, a garçonete Francisca das Chagas, 31, precisa levar o filho de 9 anos até o restaurante em que trabalha, em Santana, zona norte. “Às vezes atrapalha, o patrão não gosta. Não tenho dinheiro para pagar alguém que cuide dele.”

A garçonete espera que a greve na rede estadual de ensino acabe logo. “É justo que os professores tenham mais direitos, mas é melhor entrar logo em um acordo porque no final todos terão de usar as férias para repor as aulas.”

Ig