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‘Não houve erro histórico’, diz general sobre Jango antes de novo enterro

Em São Borja, comandante disse ainda que 'não há motivo para desculpas'. Forças Armadas preparam honras na chegada de restos mortais.

6/12/2013 14:40

 

general1aPreparado para receber os restos mortais do ex-presidente João Goulart na manhã desta sexta-feira (6), no Aeroporto de São Borja, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, o comandante Militar do Sul, general de Exército Carlos Bolivar Goellner, autoridade máxima das Forças Armadas no evento, declarou que “não há motivo para pedido de desculpas” e negou a existência de erros históricos diante da queda de Jango, deposto com o golpe militar em 1964.

Segundo ele, as honras militares não representam uma retratação histórica. “Não houve erro histórico. História é história”, afirmou ao ser questionado pelo G1 sobre possibilidade da chegada dos restos mortais de Jango, sob honras militar, significar a reparação de equívocos no passado.

Jango, como era conhecido, foi exumado para que sejam esclarecidas as circunstâncias da sua morte. O ex-presidente morreu em 1976 durante o exílio, supostamente de infarto, mas, para a família, ele foi assassinado. De acordo com a Polícia Federal, os resultados dos exames realizados por peritos só devem ser conhecidos em oito meses.

O general foi além e negou a versão oficial de que João Goulart foi enterreado como um cidadão comum, por não ter recebido no dia 6 de dezembro de 1976 os ritos militares obrigatórios a quem já foi presidente da República. “Discordo que tenha sido enterrado como um cidadão comum. Isso não significa um pedido de desculpa. Estamos cumprindo o que foi determinado pela presidente da República”, afirmou.

Questionado sobre a possibilidade das homenagens militares representarem um novo momento no Exército, o comandante Militar do Sul foi direto e disse que as instituições não mudam na história.

Indagado sobre as declarações do general, Christopher Goulart, neto do ex-presidente, evitou confronto. “Posso falar como agente civil ou político, mas não posso falar em nome das Forças Armadas. No entanto, este é um momento de reflexão, inclusive de quem provocou o golpe de estado. Precisamos de uma linha construtiva”, afirmou.

Já o senador Pedro Simon (PMDB), que era amigo de Jango, foi sucinto ao comentar as declarações: “A ordem é da presidente da República e ele tem que obedecer”, declarou.

Militares aguardam chegada dos restos mortais de Jango (Foto: Estêvão Pires/G1)

Policiais militares aguardam chegada dos restos mortais de Jango (Foto: Estêvão Pires/G1)

O voo da Força Aérea Brasileira (FAB) que traz os restos mortais de Jango, a viúva, Maria Thereza Goulart, e outros membros da família atrasou. A chegada, que era prevista para as 11h, deve ocorrer somente às 12h30. Policiais, correligionários do trabalhismo além de autoridades federais e estaduais também já estão concentrados no Aeroporto de São Borja para as homenagens.

Ao longo desta quinta-feira, são-borjenses realizaram os últimos preparativos para o segundo velório de Jango (Foto: Estêvão Pires/G1)

Jango terá um segundo velório em São Borja

(Foto: Estêvão Pires/G1)

Segundo as Forças Armadas, após a chegada do esquife, será iniciada uma guarda fúnebre. Três tiros de fuzil serão disparados, antes que os restos mortais sejam levados para um caminhão do Corpo de Bombeiros. Em seguida, a corporação irá conduzir o esquife em um cortejo até a Igreja da Matriz, no Centro de São Borja.

Morte no exílio

Jango morreu em 6 de dezembro de 1976 em sua fazenda em Mercedes, na Argentina.Cardiopata, ele teria sofrido um infarto, mas uma autópsia nunca foi realizada. Na última década, evidências levantaram a hipótese de que o ex-presidente tenha sido envenenado por agentes das ditaduras uruguaia e argentina, em colaboração com o governo brasileiro.

A principal delas foi o depoimento dado pelo ex-espião uruguaio Mario Neira Barreiro ao filho de Jango, João Vicente Goulart, em 2006. Preso por crimes comuns, ele cumpria pena em uma Penitenciária de Charqueadas, no Rio Grande do Sul. Disse que espionava Jango e que participou de um complô para introduzir uma substância mortal nos medicamentos que o ex-presidente tomava.

Em 2007, a família de Jango solicitou ao Ministério Público Federal (MPF) a reabertura das investigações. O pedido de exumação foi aceito em maio deste ano pela Comissão Nacional da Verdade (CNV).

Programação

12h30: chegada dos restos mortais a São Borja e traslado até a Igreja da Matriz

15h30: missa

16h30: traslado dos restos mortais ao Cemitério Jardim da Paz e segundo enterro

Honras militares em São Borja

Em Brasília, o embarque do caixão do ex-presidente da República na Base Aérea foi acompanhado, em uma pequena cerimônia, pela viúva de Jango, Maria Thereza Goulart, pelo filho João Vicente Goulart e pela ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário. Ao ingressar no avião cargueiro modelo C 105 Amazonas da FAB, a esquife estava coberta por uma bandeira do Brasil e foi carregada por quatro militares da Aeronáutica ao som da marcha fúnebre.

O avião decolou em direção ao Rio Grande do Sul às 8h21, mais de 1h20 após o horário previsto inicialmente. Uma comitiva formada por familiares de Jango e servidores do governo federal embarcou na mesma aeronave.

 

Com o atraso, a chegada dos restos mortais de Jango está prevista para as 12h30 no Aeroporto de São Borja, onde militares irão cobrir o caixão com uma bandeira do Brasil, e saudarão o desembarque com tiros de fuzil. De lá, o esquife será levado em cortejo ate a Igreja Matriz do município. No local, haverá visitação do público a partir do meio dia e uma missa deve ocorrer entre 15h30 e 16h30.

Em seguida, o caixão será conduzido até o Cemitério Jardim da Paz, para ser enterrado novamente no jazigo onde no mês passado ocorreu a exumação, com objetivo de desvendar os mistérios que pairam sobre a morte. Indícios de que Jango possa ter sido vítima de envenenamento durante o exílio na Argentina levaram a família de Jango a solicitar ao Ministério Público Federal a investigação.

Entre as autoridades que já têm presença confirmada estão a titular da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, e os senadores Randolfe Rodrigues (PSOL) e Pedro Simon (PMDB), que era amigo de Jango e colaborador do trabalhismo na época da morte. Simon, Maria do Rosário, o prefeito de São Borja, Farelo Almeida (PDT), e João Vicente Goulart, um dos filhos de Jango, discursarão antes da devolução dos restos mortais ao jazigo da família.

Como o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, está na China para compromissos, o presidente da Assembleia Legislativa, Pedro Westphalen (PP), vai representar o executivo gaúcho durante as cerimônias.

G1