BESSA GRILL
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O PEQUENO PRÍNCIPE DE HOJE

10/04/2013 00:55

Meu rústico caminhãozinho de madeira, puxado por cordão de algodão, me ocupava e divertia carregando pedrinhas que juntava pelas calçadas de barro. A carga era desocupada pelo Chevrolet, para seguidas idas e vindas, mas sem um objetivo prático, a não ser fazer volume na minha frente, enquanto o tempo, lentamente, passava…

Ah! Resolvi pegar uma lata vazia de leite, enchi d’água para formar um pequeno lago artificial. Com mais outra lata, a água transbordou rompendo as frágeis paredes que lhes sustentavam e não tive condições de trazer mais material pelo meu caminhão. Tudo se resumiu numa lama de barro imprestável para minha diversão.

Passei as duas mãos limpando na calça curta com suspensório, e meti o dedo indicador direito assuando meu nariz, e deixando um bigode marrom que minha mãe achou muito engraçado, quando me viu. Guardei o fiel caminhão e peguei uma caixa grande onde Dona Adélia guardava botões de vários tipos, tirados de roupas velhas. Sozinho, derramei os botões na cama, selecionei os botões de metal para fazer o papel de soldados, postando-os enfileirados, cada qual com sua cor, numa batalha pelo nada! Na minha imaginação, sempre ganhava a guerra…

O pós-guerra, e já nos anos cinquenta, suportamos os efeitos maléficos das guerras mundiais, e meus dez anos não davam para entender nada, senão a arrumação estratégica dos dois grupos enfileirados em minha cama, prontos para um confronto sem derramamento de sangue. No final, todos os botões eram guardados juntos!

Hoje, vejo um menino maluco de trinta anos de idade, amante do vídeo game e de desenhos animados da Disney assumir a Coreia do Norte após morte do seu pai, ditador ungido pela eterna gerontocracia implantada, há muitas décadas seguidas.

Tão logo assumiu o poder, o alucinado Kim Jong-um, se debruçou sobre os brinquedos colocados sobre sua mesa, para decidir acabar de vez com sua vizinha Coreia do Sul. Os botões agora são de verdade e com endereços certos para as temíveis ogivas nucleares. A partir de então paradas militares são organizadas diariamente e divulgadas pela internet para todos os países, como forma de amedrontar os vizinhos.

Quer com espada em riste ou apontando pistola para o alem, o jovem coreano, constantemente, se olha no espelho da vida, como a imitar Cinderela, perguntando haver alguém mais bonito, corajoso, rico e vitorioso que ele! Ou ainda, pretender ser a edição moderna do Pequeno Príncipe, ao contrário do equilíbrio exemplar da bem escrita peça do imortal Saint-Exupéry quando aconselha, soberanamente: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”.

No aniversário dos 70 anos do Pequeno Príncipe, mesmo envolto na perigosa ilusão delirante do reizinho cabotino e irresponsável, a guerra fratricida entre as Coreias ceifará vidas inocentes, sentenciando eternamente quem deu causa para engolir: “É o mesmo sol que derrete a cera e seca a argila”.

 

(*) Advogado e desembargador aposentado