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Nossa posição de vanguarda: Escrito Por Rui Leitao

16/01/2018 21:51

 
Nossa posição de vanguarda: Escrito Por Rui Leitao 

A luta em favor de uma sociedade mais igualitária fez de 1968 o ano que promoveu ventos revolucionários em todos os sentidos, provocando mudanças de pensamentos e atitudes nos campos sociais, culturais e políticos. O calor dos acontecimentos produzia esperanças e entusiasmo, encorajava os desafios, abria novas perspectivas de vida. Estabelecer relações sociais fundadas na igualdade foi uma das bandeiras desse novo tempo. Entre elas nivelar tratamento e oportunidades entre homens e mulheres. Romper de vez com uma cultura machista e conservadora que discriminava a mulher.

Maio de 1968 é um marco na história, consagrado como a data do maior acontecimento de contestação coletiva que se teve notícia no século passado. A França foi sacudida por manifestações públicas de estudantes e operários, com a solidariedade popular, em protesto contra o governo, gritando palavras de ordem contra o centralismo e o autoritarismo, mas também questionando conceitos e valores que ditavam os padrões de conduta da época.

Tudo começou em Nanterre, uma universidade nos arredores de Paris, quando estudantes se rebelaram contra o sistema autocrático daquela instituição. Uma das principais reivindicações dos universitários era a liberdade de circulação de homens e mulheres nas residências estudantis. Não era permitido aos homens irem aos quartos das mulheres, e elas só poderiam ir aos quartos deles se autorizadas pelos pais ou maiores de 21 anos de idade. Nascia então o primeiro movimento em defesa da igualdade de direitos para os gêneros masculino e feminino. Pela primeira vez, de forma aberta se tratava desse tema como bandeira de luta.

Entretanto, revendo os registros dos nossos jornais daquele ano, descobri que, respeitado o contexto de cada caso, a Paraíba assumiu uma posição de vanguarda na defesa da igualdade de tratamento entre homens e mulheres. Os alunos do Colégio Estadual de João Pessoa, seção do Roger, que funcionava no prédio onde antes estava instalado o seminário arquidiocesano, por trás da igreja de São Francisco, representados pelo Grêmio Estudantil Castro Alves, que tinha como seus principais dirigentes os estudantes Severino Gomes e Marcos Paiva (hoje um respeitado advogado atuando em Brasília e que viria no decorrer do ano se revelar um dos principais líderes do movimento estudantil da Paraíba), decidiram, nos primeiros dias de janeiro, encaminhar as autoridades estaduais pedido de revogação da portaria que dividia em salas separadas os estudantes masculinos e femininos. Argumentavam que essa segregação por sexo na escola, feria os princípios básicos de uma sociedade que se deseja democrática. Brigaram pela heterogeneidade do público escolar em cada turma, o que viria a permitir um aprendizado de melhor convivência social na observação cotidiana das qualidades e diferenças uns dos outros. Essa separação só contribuiria para gerar uma ideologia preconceituosa.

Conquistaram o que queriam. O secretário de educação, José Medeiros Vieira, determinou providências no sentido de atender a reivindicação dos estudantes. A partir de então alunos e alunas não frequentariam as escolas públicas estaduais em salas isoladas. Foi, sem dúvidas, um avanço nas relações sociais entre pessoas de sexos diferentes, quebrando um padrão tradicional e conservador da educação em nosso estado. Logo, deduz-se que nos antecipamos em quatro meses aos estudantes universitários de Nanterre e assumimos uma posição de vanguarda na defesa do ideal de igualdade social entre homens e mulheres, pela via escolar.

• Do livro “1968 – O GRITO DE UMA GERAÇÃO”, lançado em 2013 pela editora da UEPb

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