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NÃO ENCHE: Escrito Por Rui Leitao 

12/01/2019 20:38

NÃO ENCHE: Escrito Por Rui Leitao

Essa música composta por Caetano em 1969, quando vivia em Londres, e gravada por Gal Costa em 1970, suscita várias interpretações da mensagem contida na letra. Ele sempre teve uma relação polêmica com a imprensa. Por isso prefiro entende-la como um recado raivoso para a mídia, como quem quer dizer: “me deixem em paz”. Ele revela que está de saco cheio com tantas críticas e decide ir para o ataque.Não consigo ver o compositor baiano como uma pessoa machista, que usaria termos tão agressivos a uma mulher, no instante em que quer desfazer uma relação amorosa.

“Me larga, não enche/você não entende nada e eu não vou te fazer entender/Me encara de frente/é que você nunca quis ver, não vai querer, não quer ver/meu lado meu jeito”…”Sai do meu sangue, sanguessuga que só sabe sugar/pirata, malandra/me deixa gozar, me deixa gozar, me deixa gozar”.

Logo no início da canção Caetano já deixa claro que está no limite da paciência. Dirige-se à imprensa que tanto o incomoda, e pede que o esqueça, que desvie seu olhar para outro assunto que não seja ele. Afinal de contas, ela nunca o entendeu, nem ele tem a preocupação em se explicar, fazê-la compreender seus pensamentos colocados nas letras de suas músicas. Porque ela não o “encara de frente”, age sempre com falsidade, desrespeito, aleivosia. Preconceituosa, não aceita a sua origem, o seu “oxente”, o seu jeito verdadeiro jeito de ser.

E chega a ameaça-la. É explícito quando diz: “está no meu querer fazer você desabar”. É o seu desejo naquele momento, desmoralizá-la. Se a provocação continuar, ele não terá receio em partir para o revide. Aliás, nessa canção, já começa a desforra. Chama a mídia de “quadrada, demente”. Acusa-a de reacionária, insensata, alienada. A melodia que constrói nas suas composições é o bastante para colocá-la no seu lugar, na posição de quem não consegue observar a beleza das coisas. Na cegueira do senso crítico só quer ofender, incomodar, hostilizar. E arremata: deixa eu cantar.

Comunica que sua voz, cada vez mais, vai expressar, com limpidez, a sua vontade de gritar: “nada mais de nós”. E contará, para isso, com o apoio dos seus fãs, no anúncio de que “vou me livrar de você”.

“Harpia, aranha”, são classificações de gente que vive da ansiedade em destilar seu veneno. se revolta em observar que a imprensa se dedica irresponsavelmente à construção de enredos falaciosos. Todavia, ela sabe que o seu existir é importante para alimentar suas pautas jornalísticas. E insiste em expulsá-la da sua vida. Lamenta que se ocupe em sugar suas energias, como se fosse uma sanguessuga.

Finaliza chamando-a de “pirata, malandra”. As atitudes flibusteiras têm a intenção de tirar a sua paz. Uma postura marota de quem só quer machucar. Ele quer gozar a sua vida, livre desses achincalhes.

• Uma das crônicas do livro CAETANEANDO, ora em construção, planejado para lançamento no final deste ano.

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