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“MINHA HISTÓRIA” Escrito Por Rui Leitao

5/02/2017 21:01

 

“MINHA HISTÓRIA” Escrito Por Rui Leitao

Nesta série de crônicas tenho procurado interpretar letras de canções genuinamente brasileiras, mas resolvi fugir à regra, em razão da profunda mensagem deixada na música “Minha história” de Chico Buarque. A sua gênese vem da Itália, nos anos de 1943, quando Lucio Dalla e Paola Pallottino, compuseram “Gesú Bambino”, que quer dizer “menino Jesus”. Fala sobre as mães solteiras, no período da Segunda Guerra Mundial, que engravidavam de soldados estrangeiros. Na letra os italianos procuraram observar o contexto na visão dos próprios filhos bastardos.

Chico, amigo de Dalla, decidiu adaptá-la à nossa realidade, tomando como cenário o cais de um porto. O protagonista da história, também chamado Jesus, é filho de uma prostituta, e vive o drama de não saber quem é o seu pai, que pode ser um dos muitos marinheiros que passaram pelos cabarés frequentados por sua mãe. Chico resolve colocar “Minha história” como título de sua versão. A censura da ditadura militar proibiu por um tempo a sua veiculação, por entendê-la atentatória aos bons costumes e à moral. Coisa de mentes doentias que tinham a responsabilidade de analisar a produção cultural da época.

“Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar/Eu só sei que falava e cheirava e gostava do mar/Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente/E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente”. O menino convivia com sua dor, sua angústia de não conhecer o seu pai, nem ter esperanças de conhecê-lo um dia. Só sabe que era um marinheiro, como tantos a que estava acostumado ver no ambiente portuário. Com as características próprias dos marujos, tatuagem nos braços, ouro nos dentes, e cheirando a mar. Foi por um desses homens que sua mãe se apaixonou perdidamente e daí foi gerado. Fruto, portanto, de uma relação circunstancial, comercial.

“Ele assim como veio partiu não se sabe pra onde/E deixou minha mãe com o olhar cada dia mais longe/Esperando, pregada, parada na pedra do porto/Com seu único velho vestido, cada dia mais curto”. Nada fora da normalidade daquela ambiência. Os marinheiros transitam por lá e vão embora sem desejos de constituírem vínculos. Entretanto, sua mãe se apaixonara por um deles, que vem a ser o seu pai desconhecido. E nesse amor não correspondido, ela ficava horas a fio contemplando o mar, sonhando com seu retorno. A imagem de uma mulher que fazia do sexo profissão, desencantada, pobre, mal vestida, na esperança permanente de ver de volta aos seus braços aquele que continua no seu pensamento.

“Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto/Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo/Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher/Me ninava cantando cantigas de cabaré”. Ao nascer, sua mãe viu o filho como se fosse algo divino, um santo, como qualquer outra mãe. Acolheu-o envolto num manto, na ternura materna, olhando-o com veneração. Lembra que quando ia colocá-lo para dormir ouvia as músicas que faziam sucesso nas noites dos cabarés. Não conhecia canções de acalanto.

“Minha mãe não tardou alertar toda vizinhança/A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança/E não sei bem se por ironia ou por amor/Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor”. Ela parecia alucinada com a chegada do seu filho. Chamava a atenção de todos, tentando mostrar que ali estava alguém especial, diferente de qualquer outra criança. Para ela tinha algo de excepcional, sagrado. E foi por isso que resolveu colocar nele o nome de Jesus. Talvez para assim, tentar afastá-lo do pecado original na sua concepção, redimir-se de alguma culpa pela forma como ele foi gerado.

“Minha história e esse nome que ainda carrego comigo/Quando vou bar em bar, viro a mesa, berro, bebo e brigo/Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz/Me conhecem só pelo meu nome de Menino Jesus”. A sua história entra em confronto com o nome que carrega. Sabe que não honra, no seu comportamento e nas suas atitudes, a importância do nome que lhe colocaram. A contradição: o pervertido, por força das companhias do cotidiano, amantes e ladrões, sendo chamado pelo nome de quem a humanidade reconhece como o filho de Deus feito homem. No entanto assim é tratado por todos: Menino Jesus. Quem sabe a intenção de sua mãe foi evitar que fosse chamado de outra forma como tantos outros, em igual situação, que moravam no porto. Pelo menos o livrou de ser apontado como o “filho da puta!”…

• Essa é uma das 250 crônicas do livro “CANÇÕES QUE FALAM POR NÓS”, inspiradas em letras de músicas da MPB, dentre elas 25 de Chico Buarque.
• Quem se interessar em conhecer o inteiro conteúdo do livro pode se comunicar com o autor, RUI LEITÃO, pelo telefone 083 987625644 (whatsap) ou pelo email: iurleitao@hotmail.com .

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