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MEU SOBRINHO ME CHORAR: Escrito Por  Joao Dehon Fonseca

10/07/2017 23:46

MEU SOBRINHO ME CHORAR: Escrito Por

Joao Dehon Fonseca

 

Preciso compartilhar algo tão bonito, mas, preciso dizer algumas palavras.
O tempo é implacável. Voa e pára! Algumas vezes caminha, mas, no fim ele
é justo e o tempo dá o tempo que precisa pra se mostrar.

É com grande pesar que mais uma vez ouço a versão desta história de meus avós (Totinha e Dazinha), porém, cada vez mais com alguns detalhes que me emocionam demais e, quase em lágrimas, devo dizer que esta desventura entre os irmãos foi a sorte para todos nós netos de Dona Dazinha e Seu Totinha.

Longe de querer julgar o que teria ocorrido se meu avô ainda estivesse vivo, como netos, crescemos escutando a dura realidade de um amadurecimento precoce e o privilégio que tínhamos de poder ter nossos pais ao nosso lado sempre como amigo. Foi possível ver o quão privilegiado somos pelas conquistas e pelos tesouros que nos foram legados. É raro ouvir um filho de Dazinha e querer interromper para opinar ou até mesmo questionar. É raro ver um filho de Dazinha e querer se despedir, querer sair para outro lugar sem sequer discutir. É raro falar com um filho de Dazinha e não conseguir sustentar uma conversa por horas e horas a fio. É raro cheirar um filho de Dazinha e não entender que pobreza não é vergonha, que humildade norteia a vida e que asseio é uma virtude do ser humano e não de uma classe social nem de um privilegiado em educação, mas sim, de uma formação familiar. É raro sentir um filho de Dazinha e não se sentir mais culto, mais curioso, mais observador, mais contagiado e mais vivo.

Os nossos pais passaram para nós as informações que aprenderam em casa. São estes os ensinamentos:
– Leia tudo o que cair em suas mãos, pois cultura não pesa, não dói, não custa nada, mas, na hora que precisar faz uma enorme diferença;

– no tocante à responsabilidade: – se for dirigir, dirija por nove, por você e pelos oito que estão a sua volta; se for ensinar, treine o que precisa ser dito e tente prever o imprevisto, para que quando alguém lhe perguntar algo, você possa fazer disso o melhor aproveitamento para a pessoa; ao realizar uma tarefa sempre dê o retorno para a pessoa que solicitou; e por aí vai.
– no tocante à organização – sempre se organize, pois ter as ferramentas na sua mão é essencial para não deixar as oportunidades escaparem. Ser organizado, é estar preparado para reagir às mudanças, em vez de perder tempo para se organizar após as mudanças, pois não conseguirá fazê-lo na mesma velocidade. Parecem valores organizacionais, mas sempre fizeram parte da dinâmica de uma casa que sempre viveu com mais de 12 pessoas.
– ser atento: então lá vinha aquele famoso discurso de quando íamos às festinhas sobre se largar o copo em cima da mesa não pega-lo mais;

– ser honesto acima de tudo; se encontrar um centavo no chão devolva-o, porque para você não fará diferença, mas, você não sabe a vida da outra pessoa. Não ficar esperando que os façam assim, mas, faça a sua parte.
– não coma com os olhos – Não ponha no prato o que não vai comer, é preferível repetir a estragar, tem muita gente que não tem o que comer. Não compre algo que não irá usar; O dinheiro que você gastar desnecessariamente faz parte do suor de uma pessoa que trabalhou.

São inúmeros exemplos, inúmeros valores, inúmeros fatos a ponderar, pois nenhum desses ensinamentos veio sem um exemplo da perda de um pai, meu avô.

Desde o estudo que era realizado em um seminário-internato, por não ter dinheiro pra pagar o colégio, que dificultava estar perto dos irmãos e da mãe, fazendo o vínculo ser ainda maior; Até a colherada semanal de nescau, para a lata durar o mês; As palavras da Vó que ao lhe oferecerem fiado ela recusar por só comprar o que o dinheiro lhe dava.

Mas o que me marca acima de tudo, é saber que pintavam o pé pra disfarçar o furo do sapato pela falta de dinheiro para comprar, mas, ainda sim iam para escola sabendo que o sapato ia passar para o outro irmão. Estudar como se aquela escola fosse a de melhor qualidade do mundo, por ter sido ensinado pela vó que somente essa é a saída para o sucesso.
Hoje vemos que não há um filho de Dazinha sem ensino superior, como também os seus netos. Todos formados seguindo a máxima da família onde pode faltar dinheiro para tudo, menos para estudo e alimento. Vó Dazinha dizia: só quero morrer depois de ver todos os meus netos formados. A profecia foi cumprida,

Não sei se devo agradecer ou me queixar; acredito que nenhum nem outro, porém, papai, aquilo que foi origem do seu sofrimento é um dia de homenagem para mim, pois, me fez quem eu sou. Sou feliz.

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