Minha memória é suficiente para agradecer e lembrar os tempos de guri na casa de meus pais, Hilton e Adélia, num lar simples de ‘taipa real’, com paredes sustentadas por grossas linhas de madeira e travejada para aguentar os caibros que sustentavam as telhas. Com apenas uma porta na calçada, quatro batentes davam acesso a uma espaçosa sala de estar, com piso decorado por mosaicos coloridos coroado com um forro de madeira no teto. Pelo janelão imenso da frente, dava para eu ver os carros e as pessoas que iam rezar nas quatro igrejas antigas, no centro da capital paraibana, além dos colégios das Neves, Lins de Vasconcelos e Pio XII. O movimento era grande, mas somente sobre um tamborete de madeira observava o vai-e-vem do povo, principalmente, as belas colegiais fardadas, cujas saias cobriam os joelhos e as camisas tinham mangas compridas e golas bem engomadas. Sim: ainda tinha um cinto apertando para segurar tudo! Naqueles tempos, o batom vermelho era tido como exagerado para as garotas dos anos 60, por isso o mais comum era que usassem um suave tom rosado corando os lábios e a face, mesmo assim poucas eram as que se pintavam.

 

Fui obrigado a usar calças curtas de mescla para estudar no Grupo Escolar Thomas Mindêlo, ainda hoje, um belo monumento arquitetônico, onde tinha curso primário com cinco anos de atividade de ensino custeado pelo governo do Estado, porém com cadernos, lápis, réguas e livros, por conta dos pais. Os alunos também tinham que levar seus lanches para serem degustados na metade do período diário de aulas, entretanto, nem todos podiam trazer a merenda de casa. Eu era franzino e emperrado para alimentação, tanto que os meus pais chegavam a contar as minhas costelas como incentivo para que eu me debruçasse sobre pratos de sopas diversas, macarronada, feijão, pirão, sucos, etc. Sempre gostei do arroz com carne de sol, charque ou bacalhau e, desde aqueles idos, insistia para comer azeitonas, ameixas, biscoitos e guaraná, quando o meu pai podia comprar.

 

Certo dia, seu Hilton mandou que minha devotada babá, Amélia, sempre foi verdadeira e amorosa, arrumasse um lanche caprichado para mim, para reforço na escola, com tudo e mais algumas coisas que eu gostava e, no meio, foi uma garrafa térmica com leite morno, levado sem o meu conhecimento. Sobre a mesa da diretora da escola, uma verdadeira feira aberta para este menino de calças curtas. Engoli o que foi possível e, no final de tudo, quando um copo grande era aproximado para ser deglutido por mim, o vento forte o fez escorregar e cair das mãos, derramando o precioso líquido branco da saúde. Logo o pessoal da escola procurou limpar tudo e enxugar algumas folhas do severo livro de presença das professoras, algo de maior importância aos que ensinam as letras.

 

Me incomodava usar as calças sobre os joelhos, sobretudo porque via os homens daqueles tempos, inclusive o meu saudoso genitor, trajarem somente as compridas, enquanto a meninada não tinha acesso às confortáveis e modernas bermudas, tão úteis, principalmente com o calor nordestino. O passado, para mim, é mais que a ilusão perpetrada para a memória revolver tudo o que outrora me aconteceu. Agora com filhos, filhas, genros, noras e netinhos, todos convivendo numa família unida e abençoada, sigo com os olhos voltados para o futuro e a consciência firme na história que venho construindo, cada vez mais certo de que assiste razão ao saudoso Mário de Andrade, porque, tal declarou o poeta, tenho que “a vida é pra mim, está se vendo, uma felicidade sem repouso”, e sigo o repetindo, sem cessar que “tenho a felicidade de escrever os meus melhores versos” a cada dia que se inicia e desde que cheguei a este mundo.

(*) Advogado e desembargador aposentado