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Excelente análise da profa. Céli Pinto (Ciência Política, UFRGS). CELI PINTO: Por Fabiana Agra 

6/01/2019 20:06

Excelente análise da profa. Céli Pinto (Ciência Política, UFRGS).

CELI PINTO: Por Fabiana Agra

O pronunciamento de Bolsonaro no parlatório foi o discurso político mais tosco e primário que alguém em sua posição jamais pronunciou. O maior problema não está na ignorância e no despreparo da figura, que é mais do que óbvia, o assustador que não foi uma fala de improviso e nem certamente escrita por ele, que tenho a impressão não é letrado o suficiente para escrever mesmo um pequeno texto. O sério é que o discurso foi escrito para agradar o seu eleitor médio sem nenhuma preocupação com qualquer lógica. E ficam perguntas que não querem calar: Como se constituiu no Brasil este sujeito eleitor? Quais foram suas condições de emergência? Que enquadre lhe fez possível?Ele é novo, não se pode ficar repetindo a ladainha que a sociedade é conservadora, trata-se de um outro fenômeno.


Bolsonaro disse três coisas absurdas para qualquer pessoa que pare e pense, mas que interpela a massa de seus eleitores:


1. Vou tirar o Brasil do socialismo. O que isto significa? Que os governos do PT e do Temer eram socialistas? Evidentemente que não. Os militares em 1964 falavam no perigo do comunismo, do socialismo, mas nunca que o país estava dominado pelo socialismo. O discurso nunca explica isto, porque sua força está exatamente neste enunciado vazio, neste significante flutuante para o qual cabe qualquer significado.
2 vamos acabar com o politicamente correto. O que isto quer dizer exatamente? Que está liberado ofender mulheres, negras, gays, pessoas com deficiências? Que o estupro está liberado? Será que os 58 milhões de pessoas que votaram nele concordam com isto? Mas o significante esta ali porque é útil, porque como o socialismo é vazio de significado, é flutuante, nele cabe tudo.


3. Acabar com o direito dos bandidos e assegurar o direito do cidadão de bem. Aqui a construção é diferente, ataca os direitos humanos em uma forma tradicional da extrema direita, que sempre os associou a defesa de bandidos.


Estas três assustadoras afirmações foram vivamente aplaudidas por populares, mas não foi para aqueles fanatizados que estava falando, mas para os milhões que estavam em casa assistindo. E sobre isto temos de refletir.


Se quisermos construir um contra discurso a Bolsonaro, temos de entender primeiro porque este discurso interpela? Quando as forças progressistas, democráticas, de esquerda perderam a capacidade de construir um discurso popular? Como reconstrui-lo? É tempo de deixarmos de nos fazer de vítimas das fakenews e arregaçarmos as mangas para entender em profundidade a assustadora crise política que estamos envolvidos.

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