Já disseram, em tempos idos, que nosso Brasil não é um país sério a ponto de ter como pontos do interesse público o apoio estatal para o carnaval, o futebol e as olimpíadas. Hoje, sou favorável a esses tipos de válvula de escape do sofrido povo brasileiro, com uma saúde pública em caos reconhecido, segurança perdendo feio para a bandidagem, a educação com resultados pífios e o binômio casa própria e saneamento básico como um sonho irrealizável.

Na noite da última quarta, novo escândalo político se abateu sobre o Brasil com a facilidade de gravação do presidente Michel Temer, que teria supostamente incentivado a compra do silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, condenado a mais de 15 anos de prisão por corrupção. Sem critérios sérios, a delação do proprietário das letras fantásticas JBS, senhor Joesley Batista, conseguiu sair premiada a ponto de lhe garantir liberdade e pouco prejuízo a sua conta bancária, ainda mais usou de sua conspiração para se proteger do escândalo por ele formado e agora está com a família longe do país.

Foi o acordo perfeito, uma vez que a delação permitiu que se reduzisse a pena ou, mesmo se chegasse ao perdão judicial, o que, em rápida análise, é o quanto estamos dispostos a pagar pela delação. Os agentes públicos têm de analisar a qualidade da informação e o seu ineditismo, porque a delação é, sim, distribuição seletiva de impunidade, que foi o grande choque mesmo neste caso. Foi um tapa na cara dos brasileiros que não estão acostumados a esse tipo de negociação e, muito menos, engolir esses sapos.

Os irmãos da JBS, ilustres Joesley e Wesley Batista, donos da empresa com considerável atividade financeira, confessaram à Procuradoria-Geral da República o pagamento de cerca de R$ 600 milhões, como suborno a mais de 1.800 pessoas, tudo para facilitar os negócios de suas empresas e ainda mais, receberam da PGR, a garantia de que não seriam mais denunciados, além das garantias da permissão de poder morar muito além da querida terra brasileira. Nesse tempo, para remediar as tragédias previstas, eis que surgiu de repente a ideia luminosa partida dos gestores da JBS: comprar 1 bilhão em dólares e vender parte de suas ações do conglomerado de empresas. Pior de tudo, quando os donos do poder, abertamente escancaram dizendo que “esse tratamento diferenciado a JBS” não possibilitaria a descoberta do verdadeiro fundo do poço em que estamos. Mas, afinal, qual preço o Brasil terá que pagar para continuar vivendo nessa pauta interminável da Lava Jato?

Os graves problemas, travestidos de grandes escândalos, chegaram ao conhecimento do STF, tudo por organizações criminosas montadas por políticos e dirigentes partidários para extorquir empresários e manter um esquema de propina e caixa dois que alimenta suas campanhas em funcionamento. O Ministério Público errou na dose e tornou-se desacreditado veementemente, pois ousou mostrar as provas dos irmãos Batista sem os deixar acusados e punidos. O acusador, réu confesso, não teve uma pena mais alta do quem está lá embaixo na organização. Na minha ótica, armou tudo para se locupletar e movimento da Lava Jato está sufocando o Brasil.

www.reporteriedoferreira.com.br    (*) Advogado e desembargador aposentado