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Viver numa ilusão reconfortante ou ser quem estava esperando: por Fabiana Agra

8/05/2017 00:15

Viver numa ilusão reconfortante ou ser quem estava esperando:

por Fabiana Agra

Escrevo um dia depois da sessão do Senado, ainda impactada pelo placar de 21 senadores contrários ao andamento do impeachment de Dilma Rousseff e de 59 deles a favor, quando aceitaram a denúncia por crimes de responsabilidade fiscal contra a presidenta, tornando-a oficialmente ré – mas acusada de crimes que não cometeu, conclusão a que chegaram a assessoria técnica do Senado e o próprio Ministério Público Federal. É que as questões jurídicas ficaram de fora, valendo mesmo a vontade política daqueles que comandam o Brasil desde 1500.


Enquanto isso, vejo na TV que num passe de mágica a crise acabou – o Brasil voltou a ser grande e os Jogos Rio 2016, gente, “- a abertura foi linda!”, espírito bem diferente daquela presente na Copa 2014, onde a mesma mídia fez parecer que o país iria acabar a qualquer instante, “tudo culpa do PT”. Pelas redes sociais, acompanho a sanha do governo golpista ainda interino, que avança a passos largos contra a soberania nacional e os direitos sociais. A ordem é vender e privatizar tudo o que for possível: do Pré-Sal, Petrobrás, Caixa, Banco do Brasil, Eletrobrás, aos Correios, Casa da Moeda, Infraero, Embrapa e outras estatais mais. Ainda assisto a “Escola Sem Partido” avançar sobre o nosso sistema educacional, e políticos da extrema direita denunciados por vários crimes serem deixados em paz pelo nosso ordenamento jurídico. Não está sendo fácil.


Se 54 dos 81 senadores julgarem a presidenta culpada na etapa final do impeachment, daqui uns dias, Dilma perderá o cargo, Temer será empossado em definitivo e terá que se virar para neutralizar a resistência e legitimar-se no cargo. A partir daí, os movimentos sociais, estudantis e sindicais e quem mais ousar ir para as ruas protestar, preparem as costas para as chicotadas advindas do poder, repressão cujo ensaio geral acontece aos olhos do resto do mundo, por ocasião das tímidas manifestações #ForaTemer e seus singelos cartazinhos nos Jogos Rio 2016. Nesse campo, o presidente contará com a força-tarefa composta pelos seus fieis escudeiros Raul Jungmann, Alexandre Moraes e Sérgio Etchgoyen. Há especialistas falando até em “escalada de violência” – isso se o povo sair às ruas, por óbvio. E pode acontecer de termos os militares em cena. Se o povo sair às ruas. Se.
Caso se confirme esses vaticínios bem próprios da Cassandra mitológica, assistiremos, mais uma vez, as mesmíssimas forças que “suicidaram” Getúlio e que depuseram Jango tomarem de assalto o país. Mas agora parece que será pior, pois em 1964 o “inimigo” era externo e existia, no meio militar, algum sentimento nacionalista. Hoje, pelo contrário, a ordem é vender tudo, aliás, a ordem é pilhar tudo o que temos e entregar de mão beijada ao capital estrangeiro, que deixará algumas migalhas do butim para serem divididas com as famílias que dominam o país. Até mesmo a violência já chegou e está sendo mostrada, ainda que através de filtros, pela TV. Quanto à tortura tão presente no golpe anterior, não tenho qualquer dúvida que também chegará, e com força, quando o golpe for legitimado e as primeiras insurreições acontecerem.


O pior de tudo e por causa disso mesmo, é que a grande maioria da nossa população sequer se deu conta do que está para acontecer. Talvez seja porque o povo não possa pressentir que vai perder o que nem sentiu lhe pertencer. Mas se nada de mais acontecer do outro lado do front, caberá a nós, observadores-partícipes da História, tão somente contar a nossa versão dos fatos; a versão dos derrotados ficará para sempre registrada, até que no futuro alguém se dê ao trabalho de ler esses nossos registros.


Mas hoje, ainda podemos optar pela provocação de Chomsky “se quisermos, podemos viver em um mundo de ilusão reconfortante” ou ouvir o chamado dos hopi, repaginado por Zizek “nós somos aqueles por quem estávamos esperando”. Eu já fiz a minha escolha.

Picuí do Seridó, 11 de agosto de 2016.

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