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Trem de Brincadeira: Marcos Souto Maior

20/08/2013 06:52

MarcosSouto Maior PaiTREM DE BRINCADEIRA

MARCOS SOUTO MAIOR (*)

Enquanto menino de calças curtas saia de casa sem avisar, ultrapassava apenas um quarteirão de casas e lá encontrava os trilhos deitados em dormentes de madeira, que ligava o centro da cidade a bela praia de Tambaú, aguardando a vinda do bonde urbano elétrico da cidade de João Pessoa.

Por sua vez, aquele transporte público era alimentado por um longo braço de ferro que ligava o motor da frágil máquina com os fios dependurados por possantes postes. A estrutura era montada em cima de dois longos conjuntos de rodas de ferro que se encaixavam nos trilhos e a energia se encarregava de impulsionar. Ao redor da composição havia três batentes de madeira para as pessoas poderem acessar o patamar de cima, os toscos bancos de madeira. Tratava-se de uma composição aberta, havia puxadores laterais que iam desde o último degrau até o teto coberto por folhas de zinco pintadas.

Além da autoridade do motorneiro, fardado e com chapéu quepe, a máquina de ferro e madeira tinha também um cobrador que recolhia numa sacola de couro o dinheiro, do valor respectivo do trecho a ser cumprido. A buzina da máquina se resumia às cordas de náilon postadas dos dois lados do conjunto de cadeiras, no tilintar de um pequeno sino, e outro nos pés do motorneiro que, nem sempre era ouvido pelos carros antigos da época. Muitas barruadas aconteceram, contudo, sem maiores desgastes dos veículos e insignificantes ferimentos!

Nesse contexto, era aí que o garotão magro e de pernas finas, calçado por artesanais alpercatas de solado de borracha de pneu ficava atento na parada do bonde elétrico urbano perto de casa. Logo que é dada a partida, sem dinheiro, apressava os passos e subia no lado em que o cobrador não estava. Quando era flagrado do lado oposto aí virava uma competição, a passos largos onde o menino sempre ganhava à parada. Depois de saltar em movimento, o garoto ficava esperando para a volta triunfal do regresso a casa.

Muitas vezes, chegava alegre pelo passeio proibido, já tarde em casa e, sem desculpa aceitável, o pau comia com boas chineladas e cinturãozadas dos pais!

Hoje, temos em curso um novo e moderno bonde, também chamado de trem-bala entre cidades importantes do mundo, como Tokyo, Londres, Paris e tantas outras encurtando as distâncias com velocidade de bala, mesmo!

No nosso irrequieto Brasil, depois de várias suspensões do leilão internacional organizado pelo Governo Federal, agora o TAV – Trem de Alta Velocidade submete-se a adiamento por prazo indeterminado, congelando o desembolso de verba pública em cerca de 80 milhões de reais. Os motivos do fracasso são resumidos na falta de organização, legalidade, impessoalidade, moralidade, transparência, prudência e, operacionalidade.

Nosso trem-bala nem chegou e já sumiu dos trilhos! Ainda bem que retenho na memória o saudoso bonde feliz da meninada dos anos cinquenta e sessenta, a quem saúdo alegre, sem a certeza de poderem acreditar nas coisas do governo!

(*) Advogado e desembargador aposentado