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SER CRIANÇA: Escrito por Marcos Souto Maior

12/10/2015 17:32

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Escrito por Marcos Souto Maior

Estando em viagem ao exterior, nesse 13 de outubro, fiquei longe de meus queridos netinhos e netinhas, nesse dia onde todos têm obrigação de brincar com as crianças, enquanto a televisão e a internet se encarregam de apresentar tudo que for possível, e até impossível para a educação familiar. No meu livro de crônicas “VELOCÍPEDE VERDE”, da UNIPÊ Editora, repassei alguns traços do menino travesso, mesmo sendo o único filho do casal Hilton e Adélia, morandona rua Conselheiro Henriques nº 63,centro da capital paraibana, traquinando o tempo todo, desde tocando a sirene nas portas das outras casas,tambémchamando o vendedor diário de verduras e frutas, com seus dois balaios, me escondendo e dando risadas.Aliás, nossa casa de taipa, composta por toras de pau grande enterradas no chão da terra, completando com travejamento de pequenas vigas, a fim de suportar os bolões salpicados com barro, cal e areia molhada para rebocar as frágeis paredes, de piso de mosaico simples, de desenhos bonitos e vivos, enquanto o forro do teto era coberto de madeira pintada, apenas, nas salas de recepção e refeições, ficando o resto olhando as telhas.

Um janelão único,com duas bandas para cada lado, descortinava o local ideal para todos verem o movimento da agitada rua, com a saída e a entrada das igrejas Basílica das Neves, do Carmo e São Francisco todas próximas e também olharas meninas das freiras do Colégio das Neves, passandofardadas com blusa branca e monograma no bolso esquerdo, saia plissada azul- marinho, rigorosamente na medida abaixo do joelho, sapato preto e meias brancas soquete esticadas acima do tornozelo até a panturrilha. Minhas duas irmãs, ambas maiores que eu, Lúcia, dedicada e obedienteaos livros escolares,e Lucinete, a mais nova e loura, ao sair do colégio dobravam o cós da saia para ficar acima do joelho… Guri de índole tímida não ousava se enxerir para flertar,todavia,olhavasempre para a colega das meninas, de nomeDenise, de mais idade, que eu achava linda e sedutora. Ela sempre me correspondia, soprando um beijo no ar para mim. Num belo dia, na saída do colégio, dei um adeusinho e minha amada respondeu dizendo bem alto, para todo mundo ouvir na rua: ‘meu querido noivo, beijo para você…’ Fiquei encabulado!Surpreso e ligeirotirei logo o tamborete onde subia para sair da cena,escondendo-me no quarto e fazendoestar dormindo,evitandoo porquê da intimidade.

Outra astúcia,agora nas festas juninas, novamente o janelão era o centro da animação, todos ajudando a enfeitar com faixas coloridas de papel, e uma caixa cheia de fogos Caramuru espalhados, para facilitar a queima de bombas, traques, pistolas e vulcões. Amélia, minha babá, era a mulher de verdade da casa, colocou duas velasnum pires, para melhor acender e espocar os fogos. Pois não é que, um vento forte derrubou uma delas que caiu em cima da caixa dos fogos?! Todos os fogos foram detonados, todo mundo saiu de perto me deixando sozinho,no meio de um início de incêndio com estampidos e muita fumaça!

De estrutura raquítica, minha querida e doce mãesempre contava as minhas costelas mostrando ser compatível com as pernas, parecendo cambitos, e braços na mesma proporção. Luxentonas refeições fartas da casa, alimentava pouco e ruim… Apenas arroz, bife de carne,frutas da época com um copo d’água cheio. Verduras e alimentos fortes como feijoada, guisado, buchada, macarronada, só mesmo quando meu pai dava umas laboradas com o seu chinelo de couro enfiando colheradas que quase engulhava… Aí veio o pior: um médico amigo de papai indicou e ele comprou, um vidro do fedorento EMULSÃO SCOTT, tido como óleo de fígado de bacalhauobrigando a tapar o nariz e engolir ligeiro, numa colher grande. Ainda hoje sinto o cheiro!

Encosto na frase do escritor Mário Quintana: Quando guri, eu tinha que me calar: só as pessoas grandes falavam. Agora depois de adulto, tenho de ficar calado para as crianças falarem.

www.reporteriedoferreira.com (*) Advogado e desembargador aposentado