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SAPATOS DE CROMO ALEMÃO: Escrito por Marcos Souto Maior

8/03/2015 21:59

Marcos_Souto_Maior_nova1SAPATOS DE CROMO ALEMÃO:   Escrito por Marcos Souto Maior

 

Desde cedo na vida, aprendi com meu saudoso pai, ter cuidados especiais com o porte elegante do homem. Sim, porque a mulher é sempre muito vaidosa por natureza, desde o corpo e passando pelas vestimentas, sejam externas ou internas que deixam os homens inebriados de muito amor avançando para a conquista. Assim, o que se pensa ser ‘sexo forte’, este, também se preocupa com o banho diário, seguido pelo barbear escanhoado para deixar o rosto liso e perfumado e, vez por outra, mandar alguém podar as sobrancelhas, e os cabelos tronchos das narinas e dos ouvidos!

Um amigo de muito tempo, que trabalhei com ele numa empresa estatal, fora alçado merecidamente, a cargo de Secretário de Estado e, sempre que passava por lá, nas saidinhas diárias nos tribunais e fóruns, deixava sempre um dedo de prosa para conversarmos assuntos atuais. Entre um bom cafezinho quente e outro, numa cruzada de pernas masculinas, me chamou atenção os pés da autoridade estadual, enfiado num sapato Vulcabras que desfigurava o moderno e garboso terno azul marinho, camisa branca de punhos, gravata de listas, indumentárias recente para qualquer posse bem concorrida.

Respeitando a modéstia habitual do povo brejeiro, tomei a ousadia de lhe sugerir uma visita à loja especial de calçados bem sortida, e no centro da cidade. Olhou para os sapatos e logo despachou: ‘Marquimeu não entendo de sapatos caros, mas esse que você está com você, eu gostei… ’ Em poucas passadas chegamos à loja de Barbosinha, o próprio dono, o que se esmerou em mostrar os mais modernos e cômodos produtos da moda de sapatos masculinos. Mandou descer das prateleiras o que de melhor tinha, dentre dois pares de cromo alemão, na cor preta e outro marrom. Logo a metade do piso da loja ficou coberta de caixas de sapatos em seguida veio o tradicional e único par de meias usada dos fregueses, para o experimento do Secretário, coisas que todos procuram circular a frente de espelhos.

Satisfeito com a indicação majestosa do sapato social de cromo alemão, com pagamento em suaves três parcelas, sem juros e, especial para os destacados chefes dos poderes constituídos. Aí, meu amigo se lembrou de que poderia também comprar um sapato feminino social para sua esposa, o que foi muito fácil escolher. Por via das dúvidas, ele gostou tanto que logo comprou dois iguais modelitos Scarpin com salto alto, de verniz preto e agulha ateada, cada uma a trezentos e sessenta reais, a preço de hoje. A simpática esposa calçava número 35, já a dedicada e fiel secretária usava o número 37, igual às amigas dela que puxavam os ditames da moda pura. De próprio punho, pintou sutilmente num cantinho dos dois pacotes para não misturar. Dia seguinte, acordou cedinho e me telefonou: ‘Marcos, me lasquei, sem querer misturei os números dos pares de sapatos das meninas e a confusão está fervendo. E vê se você pode trocar…

Que bom ter um amigo que assume o que é preciso, em todos os momentos da vida. Sem reciprocidade não existe amizade, mas nada faz desaparecer as boas gargalhadas do passado saudoso onde podemos rever em cada instante, na desculpa bufa de se achar incompetente e, existindo tudo e mais algumas coisas!

www.reporteriedoferreira.com       (*) Advogado e desembargador aposentado