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Quando bate a saudade: Marcos Souto Maior

12/11/2013 12:16

 

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Marcos Souto Maior

QUANDO BATE A SAUDADE

Perambulando pelas ruas da cidade, encontrei neste final de semana um amigo de longas datas. Cheguei até titubear se era mesmo a pessoa que convivi nos áureos tempos da mocidade. Por mais que tenhamos cuidado com a mente e o físico, às vezes temos que puxar os óculos de grau para poder conhecer de verdade e correr para o fraterno abraço.

A primeira impressão é quase uma vistoria de pés até  à cabeça, e chama atenção especial quando os cabelos prateados podem ser vistos como preciosidade da melhor idade. Já a pele do rosto, coberta por leves rugas traçadas por linhas que os tempos se encarregaram de pinçar. Só a voz permanecera no mesmo som característico, secundada por gostosas gargalhadas mangando fatos e pessoas conhecidas pelos dois.

Passados os abraços calorosos, a conversa afunilou começando pela avaliação dos educandários e os respectivos estudos das séries: secundária e a científica ou clássica, assim mandava o Ministério da Educação. Então, as disciplinas escolares, como a matemática, ciências e línguas estrangeiras, nas dificuldades de aprendizagem, levou nossos pais a contratarem professores particulares que vinham as nossas casas. Numa das paredes da casa, defrontávamos com um velho quadro negro de madeira pendurado por um prego grande, uma caixa de giz para escrever palavras e símbolos e um apagador surrado completava os equipamentos. Na medida em que o professor exclusivo ia ensinando a matéria, cada qual escrevia o que fora detidamente ensinado. Ambos confirmamos o entendimento da ajuda dos pais, de olho no vestibular com poucas vagas universitárias. Diferente dos dias atuais, quando sobram lugares nas faculdades particulares.

Na sequência, chegou a hora da comparação das famílias, tendo vencido a parada com dois filhos, duas filhas, além de mais duas enteadas e sete netos adoráveis. Meu companheiro de saudades teve o destaque meritório dos seus dois filhos, terem condições de estudar no exterior do país. Com uma pontinha de natural inveja, desabafei: os ricos mandam os filhos para o exterior e os pobres remetem filhos para o interior do Estado!

A prestação de contas de fatos saudosos nos conduziu longe até os memoráveis tempos da carochinha! Bastou um olhar profundo de ambos para ser aceso o vírus da saudade, exalando imaginável perfume na exata proporção vivida por cada um. O tempo não para nem espera ninguém, contudo, arquiva com sabedoria a ocorrência de todos os fatos despertando à memória de gerações passadas e do porvir. E isto nada mais é do que os limites da vida!

Os cumprimentos se resumiram em abraços e aperto de mãos, cada qual respirando fundo a provocar a aceleração das batidas cardíacas e, finalmente virando aos poucos para lados opostos da existência vital. Quiçá, outros encontros ocorram entre amigos da juventude prateada, nunca por falta de interesse e sim, pelas múltiplas atividades de patres familiae na multiplicação dos rotineiros encargos.

Saudade é a vontade incontida de amar o passado, trazendo aos tempos hodiernos à bela esperança de esticar a temporariedade até o infinito!

 

(*) Advogado e desembargador aposentado